A fábrica Linhas Corrente e algumas histórias – parte 2

Esta é a segunda e última parte do artigo das historiadoras Cibeli Piva Ferrari e Fernanda Mara Borba, que conta um pouco da história das Linhas Correntes em Joinville, ao longo de 75 anos de atividades. A pesquisa foi realizada a partir de solicitação da Comissão do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Natural do Município de Joinville (Comphaan) à empresa proprietária do imóvel e publicado na Revista do Arquivo Histórico de Joinville, em 2013.

Se você não leu a primeira parte, clique aqui.


A respeito da produção da fábrica, a exclusividade com a empresa de São Paulo conferia facilidades administrativas e burocráticas. Apesar da forte ligação com São Paulo, a fábrica joinvilense detinha certa autonomia e independência. Os carretéis eram produzidos e enviados uma vez por semana para São Paulo, sendo um único comprador para toda a produção. Segundo o entrevistado, a quantidade era enorme, chegando a enviar, no auge da produção, trinta mil grosas por mês, sendo que uma grosa correspondia a cento e quarenta e quatro carretéis.

A produção do carretel envolvia diversos processos, necessitando de significativa mão de obra. As toras retiradas do mato eram beneficiadas e transformadas em tábuas na serraria. Os sarrafos eram secos ou no sol ou na estufa, para atingir a umidade adequada, deixando o pátio da serraria sempre cheio do gradeamentos. Após a secagem, a madeira era torneada e cortada nos tamanhos apropriados para o carretel, entre quatro e cinco centímetros. Após serem furadas, iam para as máquinas de facas para modelar a madeira e transformá-la em carretel. Finalizando o processo, os produtos eram escolhidos e aqueles que não se encaixavam no padrão viravam lenha na caldeira juntamente com a serragem da fábrica ou eram dados aos funcionários. Antes de virar lenha, os resíduos ficavam no depósito que, conforme recorda Adhemar Garcia Filho, servia de diversão para as crianças que viam na serragem uma divertida brincadeira. Outra curiosidade lembrada por Rubens Braga é que, apesar do forte da produção ser o carretel pequeno, eram produzidos alguns maiores para uma linha mais forte, também utilizada para soltar pandorga.

Gradeamento de sarrafos na serraria da Fábrica. Acervo: Adhemar Garcia FilhoAdhemar Garcia Filho.

Gradeamento de sarrafos na serraria da Fábrica. Acervo: Adhemar Garcia FilhoAdhemar Garcia Filho.

Conforme o crescimento da fábrica surgia também a necessidade de ampliar a estrutura predial. Novos galpões, muros de alinhamento, estufas, caixas d’água, a troca de silo de madeira por um de concreto e alteração da fachada, entre outras coisas, foram realizadas para melhorias e adaptações na produção. Rubens Braga mencionou a existência de uma chaminé alta ligada à caldeira e que hoje não existe mais. De acordo com informações orais e documentais, em 1944 ocorreu um incêndio na fábrica, sendo necessária a reforma de vários lugares e a construção de tanques para o armazenamento da madeira: “[…] como o material que era utilizado naquela época era muito inflamável, serragem e era seco não é, a fábrica sofreu […] dois grandes incêndios, um outro foi um incêndio muito grande e dali para frente então se adotaram procedimentos de segurança. […] Foi adquirido um equipamento contra incêndio, era uma máquina, uma bomba, […] mas era um equipamento na época muito moderno […], eles [referindo-se a Joinville] tinham um pouco de dificuldade com água. E como medida de proteção contra um eventual incêndio, tinha que ter a água como instrumento de defesa da coisa, então se construíram dois grandes depósitos. Primeiro se construiu um pequeno. […] Então eu sei que tem dois grandes depósitos.”

Sobre as relações de trabalho na fábrica, Rubens Braga, que trabalhou ali de 1939 a 1982, mencionou a churrascada de final de ano e o fato de ser uma das primeiras fábricas a dar abono de Natal em Joinville. A fábrica era conhecida na cidade somente por Carretel e era uma referência de um bom local de trabalho. Os trabalhadores vinham de vários lugares da cidade, mas a mão de obra mais forte era da zona Sul. E o pessoal que trabalhava nas matas para derrubar a madeira era de Pirabeiraba e Quiriri. Na cidade tinha um ditado: “[…] o operário ele… A conversa entre eles, se um falou: – Eu saí da Carretel, não estava satisfeito. Então não servia para trabalhar em outro lugar. [risos]. Era o lugar melhor para trabalhar. Era a Carretel. É! Então entre eles tinha este ditado. Ah a se não servia na Carretel… [risos]”.

Trabalhadores da linha de produção Fábrica de carretéis. Acervo: Adhemar Garcia Filho

Trabalhadores da linha de produção Fábrica de carretéis. Acervo: Adhemar Garcia Filho

A Fábrica fechou em 1984 em razão da diminuição da exploração da madeira e da produção de carretéis de plástico: “Ela fechou em razão da madeira que foi escasseando, então foi ficando mais difícil e mais caro e em São Paulo lá na Linhas Corrente, eles começaram a fazer esses retrós… De plástico e aquilo era muito mais fácil de fazer. Foi mantido este de madeira porque era tradicional, isso é uma empresa que vende no Brasil todo, também interessava não terminar, mas depois com as dificuldades da madeira eles tiveram que passar para… Plástico! Aí só o plástico. Os últimos tempos já estavam fazendo cinco mil ou sete mim grosa por mês, então já não tinha mais aquela saída. Mas em razão da madeira, que foi faltando. Tinha que se pegar mais longe… Essa madeira nossa, a mais apropriada tinha mais quantidade na serra, então foi dificultando e depois diminuiu também.”

Além dos depoimentos orais, o fechamento está presente nos jornais da cidade, como pode ser verificado na reportagem do jornal A Notícia de 30 de agosto de 1984.

Em 29 de Abril de 1985, a Fauhy Investimentos Ltda. adquiriu o imóvel pertencente a Linhas Corrente sito à rua Inácio Bastos número 165/197 e rua São Paulo número 894. A compra foi realizada para investimentos imobiliários e locação dos galpões existentes. Desde então foram desenvolvidas atividades relacionadas a indústria têxtil, depósitos, escola, venda e assistência de motores elétricos, móveis usados, industrialização e comercialização de produtos de poliuretano, marcenaria, marmoraria, câmaras frigoríficas, serviços de decoração de festas bem como residências. Destaca-se entre os inquilinos, uma filial da malharia Marisol S/A, que ocupou o imóvel de 1985 a 1993.

Apesar do fechamento e a desativação, a fábrica ainda está presente nas memórias daqueles que vivenciaram seu cotidiano e construíram suas vidas paralelamente à ela, envolvendo as linhas que traçaram o imóvel como uma referência patrimonial na história da cidade.

Sobre as autoras:

Cibele piva ferrari1_p

Cibele Piva Ferrari: Graduada em História, mestre em Patrimônio Cultural e Sociedade e doutoranda em Educação. Atua como pesquisadora na área de História da Educação e Patrimônio Escolar.

 

 

 

fernanda borba_pFernanda Mara Borba: Graduada em História, especialista em Arqueologia, mestre em Patrimônio Cultural e Sociedade e doutoranda em História. Atua como pesquisadora na área de História e Arqueologia.

 

 

 

Comentários