A fábrica Linhas Corrente e algumas histórias

Este trabalho conta um pouco da história das Linhas Correntes em Joinville, ao longo de 75 anos de atividades,  e foi pesquisado e redigido em 2011 pelas historiadoras Cibeli Piva Ferrari e Fernanda Mara Borba. Na época, o imóvel que havia abrigado a empresa estava em processo de análise de liberação para a sua demolição, e essa pesquisa foi realizada a partir de solicitação da Comissão do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Natural do Município de Joinville (Comphaan) à empresa proprietária do imóvel. O artigo foi, posteriormente, publicado também na Revista do Arquivo Histórico de Joinville, em 2013.

Para facilitar a leitura, o artigo foi dividido em duas partes. Esta é a primeira.


Serraria de Adhemar Garcia no Bucarein, local em que iniciou a produção de carretéis. Acervo: Adhemar Garcia Filho.

Serraria de Adhemar Garcia no Bucarein, local em que iniciou a produção de carretéis. Acervo: Adhemar Garcia Filho.

Os imóveis relacionados à Linhas Corrente incluem um prédio mais antigo construído por Peter Mayerle que, em 1910, fundou a Fábrica de Fósforos Mayerle e Cia., fechada em 1928. Além deste, novos galpões foram construídos conforme a necessidade, refeitório, enfermaria, entre outros prédios que compõem o imóvel em questão, localizados na Rua Inácio Bastos e na Rua São Paulo1. O imóvel está atualmente em processo de análise de liberação para a sua demolição. Após o fechamento da Fábrica de Fósforos Mayerle e Cia, Adhemar Garcia adquiriu parte desta propriedade para a instalação da fábrica de carretéis inicialmente denominada Adhemar Garcia e Cia. e, posteriormente, Fábrica de Carretéis Santa Theresinha S/A, fruto da sua forte ligação com o ramo madeireiro. A madeira foi um importante produto para a economia joinvilense, destacando-se como um dos ciclos econômicos de grande relevância na cidade. Adhemar Garcia foi um dos líderes políticos de Joinville com atuação ao longo das décadas de 1940 a 1960, exercendo notável importância no desenvolvimento da cidade nestas três décadas. “Sua influência foi decisiva em diferentes momentos e situações, conseguindo melhorias e verbas para a cidade, inclusive na ampliação da rede de distribuição de água” (Jornal A Notícia, 16 abr. 2000, p. A17). Vereador e líder do Partido Social Democrático, também presidiu a FIESC na década de 1960 e a ACIJ de 1943 a 1961. Faleceu no início da década de 1980 e deixou profunda e relevante marca no cenário político e econômico de Joinville.

Fundada na década de 1930, a fábrica de carretéis funcionou inicialmente na serraria que Adhemar Garcia mantinha no bairro Bucarein, com a denominação de Adhemar Garcia e Cia (Fig. 1). Ligada a serragem e beneficiamento da madeira, tinha também uma propriedade no Quiriri. A madeira era comprada de terceiros, vindos de várias regiões do Estado, principalmente região de serra, devido às especificidades necessárias para a fabricação do carretel. Além da compra da madeira, a fábrica contava com um grupo especial que fazia a derrubada na região próxima à Serra Dona Francisca. As toras eram retiradas do mato e transportadas em carroções puxados a cavalo. O tipo de madeira mais apropriado para a fabricação dos carreteis era a caxeta e cedrinho, por serem mais macias e leves, e também porque possuíam a coloração adequada. Segundo Rubens Braga, antigo funcionário da fábrica, o carretel poderia ser produzido com qualquer madeira, “mas uma era muito dura, outra era escura e aquele carretel era branco, a madeira branca”

Com a transferência da fabricação de carretéis de onde estava a Serraria para a Rua Inácio Bastos, a fábrica passou a ser denominado Fábrica de Carretéis Santa Theresinha S/A (Fig. 2). O negócio era pequeno e, segundo o entrevistado, Rubens Braga, que trabalhou durante quarenta e três anos na fábrica, se aposentando como chefe de escritório, na administração trabalhavam inicialmente, apenas Adhemar Garcia, ele e outro funcionário. Com o crescimento da fábrica, o número de funcionários também cresceu, necessitando de mais pessoas para a sua administração.

Sobre a paisagem do bairro quando iniciou, Rubens Braga comentou: “As ruas eram todas de chão batido, não tinha calçamento… Então era mais difícil. A rua onde está a Fábrica na Inácio Bastos, em tempo de chuva… Joinville chovia mais ainda naquela época [risos]. Não tinha ninguém que transitasse sem sujar o calçado [risos] por causa das carroças que trabalhavam para o Porto de Bucarein levando madeira. Aquilo então cortava a terra e ficava em lama, então para transitar a pé [risos] tinha que sujar os sapatos”.

A fábrica foi se desenvolvendo com o tempo, iniciou pequena e se tornou referência nacional, destacando-se como a única no segmento no Sul do Brasil. O carretel era produzido em Joinville e enviado para a empresa Linhas Corrente em São Paulo, devido à abundância da matéria-prima (madeira) na região. No início a produção da fábrica de carretéis atendia a Linhas Corrente e à outra empresa (não identificada pelos entrevistados), passando posteriormente a atender exclusivamente a demanda da Linhas Corrente, locada em São Paulo, produtora da linha.

 Fachada da Fábrica Santa Theresinha. Acervo: Adhemar Garcia Filho

Fachada da Fábrica Santa Theresinha. Acervo: Adhemar Garcia Filho

Atualmente denominada como Grupo Coats Corrente, a empresa teve origem na Escócia no início do século XIX, com a fabricação de fios de algodão. Aproveitando as novas tecnologias advindas da Revolução Industrial têxtil europeia da época, se tornou empresa líder mundial de linhas para costura industrial e doméstica. Atualmente está presente em mais de 60 países e a unidade brasileira foi fundada em 1907, no bairro Ipiranga, em São Paulo.1 Apesar das alterações na denominação da fábrica de carretéis, as estruturas de produção e da administração permaneceram – inclusive Adhemar Garcia foi seu diretor mesmo após a venda para a Linhas Corrente em 1976. A venda é considerada como uma transação comercial, consequência da exclusividade da produção. Em relação aos momentos das mudanças,Rubens Braga informou: “Quando entrei em julho de trinta e nove era Adhemar Garcia e Companhia. Em seis de janeiro de quarenta passou a Fábrica de Carretéis Santa Theresinha. Em dois de setembro de sessenta e oito passou para Linhas Corrente S/A – Divisão de Carretéis e depois em mil novecentos e setenta e seis, não sei precisar a data, Linhas Corrente Ltda. Isso eu tirei pela minha carteira profissional”.


Sobre as autoras:

Cibele piva ferrari1_pCibele Piva Ferrari: Graduada em História, mestre em Patrimônio Cultural e Sociedade e doutoranda em Educação. Atua como pesquisadora na área de História da Educação e Patrimônio Escolar.

 

fernanda borba_pFernanda Mara Borba: Graduada em História, especialista em Arqueologia, mestre em Patrimônio Cultural e Sociedade e doutoranda em História. Atua como pesquisadora na área de História e Arqueologia.

 

 

 

Comentários