Da Utilidade das Memórias – por Dilney Cunha

A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Essas palavras de Marc Bloch, historiador francês fuzilado pelos nazistas, fundamentam e justificam não apenas um método de interpretação da história mas a importância e utilidade de se conhecer o passado. Para Bloch, essa é porém uma via de mão dupla, pois se faz necessário também conhecer o presente para compreender o passado. E para que serve esse conhecimento?

As sociedades e indivíduos em todas as épocas necessitaram escolher os fatos e experiências que possuíssem algum significado prático para a sua existência futura e que portanto deveriam ser preservados (ou retidos pela memória), e aqueles que poderiam ser descartados (esquecidos).

Aqui temos uma das mais importantes funções da memória humana – a capacidade seletiva. Mas para além dessa função prática, a memória pode ser (e é) facilmente manipulável, prestando-se também a fins políticos, ideológicos. Como demonstrou Le Goff: “Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva.”

Assim, há na sociedade um esforço no sentido de se elaborar uma “memória oficial’, que passa então a ser divulgada em publicações, filmes, músicas e é expressada ainda no que Nora chamou de “lugares de memória”, como monumentos, museus, comemorações. Essa memória, baseada na dialética da lembrança / esquecimento, legitima muitas vezes práticas sociais calcadas em princípios de superioridade cultural ou racial.

Em grande parte das sociedades atuais, o indivíduo, mergulhado no ritmo frenético exigido pelo trabalho, é bombardeado por uma quantidade enorme de informações, fazendo com que as consuma muitas vezes de forma acrítica.

Por outro lado, como se fosse a outra face da moeda da globalização, temos visto uma necessidade cada vez maior de “lembrar”. Há um grande público ávido por literatura e filmes que abordam temas “históricos”, sites e comunidades virtuais voltados para a História, criação de espaços de memória, ações e movimentos em prol da preservação do patrimônio cultural.

E é justamente aqui que se abre a oportunidade para que nós, profissionais ou interessados no estudo e conhecimento do passado, possamos dar nossa contribuição social. Não se trata, como diz Jeanne Marie Gagnebin em Lembrar, Esquecer e Escrever, de “lembrar por lembrar, numa espécie de culto ao passado”, através de comemorações solenes seguindo ritos e ritmos oficiais que reproduzem a memória de uma minoria dominante.

Mas de realizar um trabalho com a memória, utilizando diversos suportes (documentação escrita, imagens, depoimentos, objetos), que interfira no presente, de forma a modificá-lo. Reside aí a importância de se dar espaço e voz às múltiplas memórias que constituem o tecido social, como as dos grupos marginais e subalternos. Memórias que geralmente não estão monumentalizadas ou inscritas em obras textuais ou artísticas. Entre esses grupos estão os idosos, protagonistas em outros tempos, como guardiões e transmissores da memória, tão relegados na sociedade pós-moderna.

O ato de compartilhar as memórias induz a construção de relacionamentos mais sólidos entre pessoas e grupos, mesmo de gerações diferentes, e estimula a tomada de ações coletivas. Ao realizar tal ação, não nos aprisionamos ao passado, mas tornamo-nos mais conscientes de nosso papel na sociedade em que vivemos, da importância do patrimônio cultural e nos ajuda a entender e a solucionar os problemas contemporâneos.

O presente site, criado por uma feliz iniciativa da jornalista Maria Cristina Dias, segue nessa linha, de nos apresentar memórias e incitar a reflexão sobre o passado e à ação transformadora, ou como diria Walter Benjamin, redentora.

Saiba mais sobre Dilney Cunha

Professor, historiador nascido em Joinville, autor do livro “Suíços em Joinville. O duplo desterro” (Ed. Letra d´Água, 2003). Traduzida para o alemão e lançada na Europa com o título “Das Paradies in dem Sümpfen” (O paraíso no pântano – Suíça, 2004, Editora Limmat, Zurique, com prefácio do deputado federal suíço Hans-Jürg Fehr). Autor do livro “História do Trabalho em Joinville – gênese” (Ed. Todaletra, Joinville, 2008). Co-autor (com Nilson Bastian) do livro “Memória Afetiva – Joinville” (Ed. Todaletra, Joinville, 2010). Assistente de produção, direção e roteiro do filme – documentário suíço-brasileiro “Suíços Brasileiros – uma história esquecida” (Júpiter Filmes), lançado em 2012, baseado na obra “Suíços em Joinville. O duplo desterro”. Participou de pesquisas, proferiu palestras e escreveu artigos que abordam temáticas ligadas à História, Patrimônio e Memória.Atualmente é coordenador do Museu Nacional de Imigração e Colonização.

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