Mãe, esposa, dona-de casa, trabalhadora – Jutta Hagemann revela um pouco dos múltiplos papéis da mulher ao longo do século 20

Muitos estudiosos pesquisaram e escreveram sobre o papel das mulheres ao longo dos tempos. Mas poucos viveram quase um século, vivenciaram as mudanças ocorridas na sociedade e podem, por experiência própria, comparar os modos de viver de antigamente e de hoje, como é o caso de Jutta Hagemann. Nascida em Joinville em 1926, ela está prestes a completar 89 anos de idade e conhece como poucos as histórias do dia a dia da cidade. Nesta entrevista ao programa Cidade em Ação, da TV da Cidade, Jutta Hagemann fala um pouco de como era o cotidiano das mulheres de sua convivência nos anos 30, 40, 50 em Joinville e como as mudanças ocorridas no mundo ao longo deste período influenciaram na relação entre as pessoas.

Maria Cristina Dias – Dona Jutta, a senhora nasceu em 1926 e acompanhou as mudanças ao longo do século 20. Quando a senhora era menina, como era o papel da mulher nessa sociedade de Joinville?

Jutta Hagemann – Dependia da classe social. Entre as amigas da minha mãe, ninguém trabalhava fora. Mas a gente conhecia pessoas que trabalhavam, não em escritórios, mas em malharias, como atendentes de lojas, costureiras… e ajudavam no orçamento de casa. Poucas de classe média trabalhavam fora. Elas eram criadas para ser dona de casa. Iam à escola, aprendiam a tocar piano…

MCD – Como foi a formação da sua mãe, Gerda Hagemann, que nasceu em 1901?

JH – Ela foi à Escola Alemã. Quando terminou, meu avô ia mandar ela para a Alemanha para estudar Arquitetura. Com a Primeira Guerra, isso não foi possível. Então ela ficou e aprendeu a bordar, a cozinhar, a tocar piano…

MCD – O seu avô trabalhava em quê? De que avô nós estamos falando?

JH – Ele era Rudolf Brand, tinha a Esquadrias de Madeira Brand, na rua Engenheiro Niemeyer. O irmão mais velho dela foi estudar na Alemanha. E ela tinha queda para a Arquitetura. Mas não deu…

MCD – Naquela época, as moças já tinham essa possibilidade de optar por fazer uma carreira profissional ou se casar? Ou fazer os dois juntos…

JH – Isso eu não sei. Ela só sempre comentou que iria estudar. Como tinha parentes lá, era fácil para eles. Mas mesmo assim, durante a vida , casou, bordou muito, cozinhou muito, mas sempre mexia com a decoração da casa, desenhava móveis. Ela tinha realmente essa aptidão.

MCD – Uma vez a senhora comentou comigo que ela e as irmãs, na juventude, ajudavam o pai na empresa….

JH – Eram cinco irmãs. Elas ajudavam em casa. A minha mãe e uma irmã mais velha cozinhavam porque os operários da fábrica comiam no trabalho. Elas cozinhavam para a família e para a fábrica. Minha mãe contava que, de criança, meu avô matava porco, fazia linguiça… ela levava doces porque o avô era confeiteiro. Então, as crianças ajudavam na casa. Isso na década de 10, 20.

MCD – Depois ela se casou com o sr. Conrado Hagemann, que era bancário. Como era a vida de sua mãe e das amigas dela, que participavam do lanche?

JH – Quando eles se casaram, meu pai trabalhava no Banco Nacional do Comércio e eles foram morar em Blumenau. Meu pai sempre dizia que o banco fez uma promessa e não cumpriu. Então, ele fez concurso para o Banco do Brasil. Meu irmão nasceu em Blumenau em abril, e ele começou a trabalhar aqui, em Joinville, no Banco do Brasil, no 24 de março de 1924 – minha mãe anotou a data. Ela de moça tinha um lanche que acabou quando todas casaram. Era o “Sempre Alegre”. Acabou porque a maioria casou e mudou de cidade. Mais tarde elas tinham lanche com outras amigas. Ela sempre teve lanche em casa. A vida era normal. Ela cozinhava, costurava para nós à medida em que os filhos iam nascendo e se envolvia nas tarefas da casa.

MCD – Esses lanches eram espaço de convivência tanto de moças, quanto de senhoras casadas e idosas? Como funcionava isso?

JH – Elas formavam o lanche. Primeiro toda semana, depois a cada 15 dias. A maioria bordava o enxoval. Já tinham a bolsa preparada para o lanche, com o bordado, o crochê. O lanche tinha essa finalidade… conversar, bordar… hoje quase ninguém mais borda… Falta tempo. No meu tempo de lanche já não havia mais o bordado. Quer dizer, raras pessoas bordavam ou faziam tricô.

MCD – A vida se entrelaçava ali?

JH – Entrelaçava. Qualquer reunião que se fazia lá em casa, estas pessoas estavam lá. E já com os maridos, os filhos. Se visitavam. Mesmo fora do lanche, esse grupo se visitava. Conversavam sobre tudo. Minha mãe tinha um lanche que era só de conversa. Tinha um lanche em que liam, outro em que ouviam música. Mas estes dois eram menores – poucas pessoas. Outros tinham 13, 14 pessoas… dependia do grupo. E isto depois passava para as filhas. Até hoje tem, mas estão acabando. Porque não se renova. Eu nunca tive porque sempre trabalhei e não tinha lanche na parte da noite. Comecei a ir ao lanche em 1990. Indiretamente, participava do lanche da minha mãe, pois elas ainda estavam lá quando eu chegava do trabalho. Em 1990, comecei a participar de um lanche mais antigo, que já acabou.

MCD – A sua mãe se envolvia na administração da casa?

JH – Se envolvia. Meu pai dizia que ela era o ministro da Fazenda. Controlava as finanças. Eu ainda tenho os livros de contabilidade dela. Ela anotava tudo o que era feito na casa, qualquer obra. Tudo era anotado. E era ela que fazia o controle.

MCD – Mas isso era comum nas famílias ou era algo da sua casa? As amigas dela tinham isso?

JH – Eu acho que não. Eu acho que era do casal. Ela que mandava nas finanças. Eu tenho a impressão que não… Sei que mais tarde, quando meu pai faleceu, ela assinava cheques, controlava as contas… tudo era normal, pois ela já tinha prática. E eu reparei que outras amigas dela se sentiam perdidas quando o marido falecia. Os filhos tinham que ajudar porque elas estavam perdidas nas finanças.

MCD – E mulher operária, que trabalhava nas fábricas. Era comum nas décadas de 20, 30 40?

JH – Tinha muito. Nas fábricas trabalhavam muitas mulheres – principalmente nas malharias, que tinham bastante aqui em Joinville. E mesmo em outras fábricas. Mas a partir dos anos 60… elas não estavam mais nas máquinas. Estavam mais no escritório, em serviços gerais. Nas malharias, sim. Mas em outras áreas, não. Acho que elas passaram mais para escritório.

MCD – Como foi a sua entrada no mercado de trabalho?

JH – Foi meio difícil. Eu era muito acanhada. Mas fui, trabalhei, me acostumei. Comecei na Tupy, depois na Ambalit e mais tarde na Buschle. Fui secretária na Buschle por 25 anos e trabalhei por tudo lá. Lá, eu já vi a mudança que houve. Muitas meninas trabalhavam. Elas já começavam cedo. A maioria começava no arquivo e de lá se desenvolvia, era direcionada para outras funções.

MCD – A senhora comentou comigo que antes os bancos não aceitavam mulheres?

JH – Eu tenho uma foto do meu pai no Banco Nacional do Comércio em que tem só uma moça trabalhando. Era a única. Isso na década de 20. O Banco do Brasil aceitou moças só bem mais tarde. Talvez tivesse telefonista… Mas no escritório mesmo não aceitavam moças, eram só rapazes. Os outros bancos,que me recordo aqui, também não tinha moças.

MCD – Mas quando a senhora entrou no mercado, já era mais comum…

JH – Já. Na década de 60, começaram. Quando o Banco de Londres começou, muitas moças foram. O Banco Inco tinha muitas moças já na década de 40. Meu irmão foi trabalhar no Inco em 1941 e já tinha moças. Mas dependia do banco. Não era comum. Mas a gente já via mais moças trabalhando em escritórios, correios. E elas continuavam nas malharias, nas máquinas, nos teares… e o sistema de vida delas também era diferente. Tinha o serviço de casa e do escritório. Tinha que se programar para dar conta.

MCD – A senhora também enfrentou essa dupla jornada, não é?

JH – Enfrentei. Não podia deixar todo o serviço para a minha mãe. Então lavava roupa, passava roupa das meninas. Tinha que cuidar das meninas. Entre as minhas colegas de trabalho, muitas deixavam as crianças na creche e iam para o serviço. À medida em que iam tendo os filhos, deixavam um, dois três. Era comum levar para a creche.

MCD – Então era porque já tinha uma grande quantidade de mulheres no mercado de trabalho…

JH – Já tinha. Muitas ficaram no Lar Abdon Batista ou no Padre Kolb… Deixavam lá para passar o dia, como creche. E quando chegavam em casa, continuava o serviço. Tinham que dar conta da casa, fazer comida para o dia seguinte. Nesse época já se comia fora, já tinha restaurantes. Mas não era tão comum… As distâncias já começaram a aparecer. Quando eu trabalhava na Tupy, saía, ia em casa e almoçava. Mas a Tupy era no centro, na rua Pedro Lobo. Quando foi lá para fora, já tinha restaurante. Já se passava o dia fora.

MCD – Como é que a tecnologia contribuiu par essa realidade, dona Jutta?

JH – A sorte foi a máquina de lavar roupa…. Lá em casa, meu pai comprou uma máquina em 1951, era uma semiautomática. Aquilo foi o máximo. Foi uma revolução. Antes tinha uma senhora que vinha lavar roupa e passava o dia todo nesse serviço. Era um tal de lavar, botar no pasto, ferver, voltar para o pasto, enxaguar, pendurar… tudo isso dava trabalho. Mesmo depois, com a máquina, ela ainda colocava a roupa no pasto… mas já facilitava. E depois foram aparecendo outros aparelhos. Geladeira já tinha. Batedeira, minha mãe comprou em 1951 e está lá ainda, funcionando. Facilitou a vida. O que antigamente era feito à mão, foi facilitado.

MCD – Isso contribuiu para a que a mulher pudesse ir para o mercado de trabalho…

JH – Facilitava. Porque chegava em casa, lavava a roupa na máquina e pendurava. Depois, os tecidos foram mudando. Não se engomava mais a roupa – antigamente tudo era engomado… os tecidos mudaram. Secava tudo mais rápido. Mudou a vida da mulher. E tinha aspirador de pó, secadora. Quem é que vai passar um escovão hoje? A maioria nem sabe o que é. Quem usa enceradeira hoje? Tudo isso facilitou o modo de vida. E hoje em e dia, com tudo o que tem, não devia nem ter muito serviço em casa… mas continua tendo. Hoje em dia mudou todo o sistema de vida. E com isso, mudaram as relações. No meu tempo de menina, colocava-se a mesa para o café da mãe, para o frühstück, o almoço, o café da tarde e o jantar. Agora, apareceu a TV e acabou. Se ela não estivesse na sala de jantar, já não havia mais a necessidade de colocar a mesa. Antes, a família se reunia mais e se visitava os amigos. Isso acabou. Não se visita mais.

MCD – Ou seja, mudou a sociedade, mudaram as relações…

JH – E mudou a vida dentro de casa também. Acabou tendo mais TV em casa. Hoje em dia cada um tem a sua e quer ver o seu programa. Aí é muito difícil o serviço da mulher de tentar juntar, agregar todo mundo. Fora isso, tem o trabalho. Um chega às 7h, outro chega às 8h, outros às 9h. Não dá para todo mundo jantar junto. Antes conseguiam. Todo mundo estava em casa às 6h, às 6h30. Às 7h da noite, estavam sentando para jantar. Isso hoje em dia não tem e você não pode exigir. Você sai do emprego e tem trânsito. Antigamente não tinha. Mudou tudo. Mudou muito e vai mudar mais ainda. Hoje todo mundo vive com celular. Você vai no consultório médico e tem um silêncio na sala de espera Cada um com seu celular. Antigamente eram histórias horríveis de doenças… (risos) cada um contava a sua, a do amigo. Hoje em dia tá todo mundo bem quietinho.

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