Richlin – Um nome que perpassa a história de Joinville. Entrevista com Helena Richlin

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A tradutora Helena Richlin. Crédito: Maria Cristina Dias

A história da família Richlin se confunde com a de Joinville (SC) desde os primeiros tempos de formação da antiga Colônia Dona Francisca. Eles chegaram em 1851, no mesmo ano de fundação do empreendimento colonizador que marca o início oficial da cidade. Se estabeleceram na região que atualmente é central e, gradativamente, foram ampliando sua presença no local e na vida pública e comunitária da colônia. Hoje, o pioneiro é lembrado na rua Jacob Richlin, que leva seu nome, e a família está presente em um dos principais cenários de Joinville, a esquina da rua das Palmeiras com a rua do Príncipe, na construção que abrigou a centenária Casa Richlin. Uma presença que será levada para o futuro. Tombada, a casa é mantida com zelo pela quinta geração, que alia a preservação do patrimônio histórico com a sustentabilidade do bem.
Nesta entrevista, a tradutora Helena Richlin, trineta de Jacob Richlin, conta quem foi esse personagem, o começo da família em Joinville, e fala um pouco de seu bisavô Gustavo Richlin, homem público no final do século 19 e fundador da Casa Richlin. Revela também como esta história foi passada de pai para filho por cinco gerações e discorre sobre o recente fechamento do estabelecimento comercial e o futuro do prédio.

Obs: As informações entre parênteses são esclarecimentos da jornalista para a melhor compreensão do contexto da entrevista.

Maria Cristina Dias – Quando começou a história da família Richlin em Santa Catarina, em Joinville, e como foi esse início?
Helena Richlin – O Jacob Richlin veio de Schaffhausen, na Suíça, em 1851, no navio Emma & Louise (o segundo a trazer os imigrantes para a Colônia Dona Francisca). Profissionalmente, ele já trabalhava lá com curtume. Tinha esta formação. Então, inicialmente, ele abriu o curtume na área central da colônia. A localização, eu não sei ao certo. Mas era central. Depois passou para o lado de cá do rio Cachoeira, no início do bairro Boa Vista. Há relatos de que o curtume inicial do Jacob Richlin aproveitava as águas que desciam do morro da rua do Príncipe (que foi aplainado). Mas o pai (o comerciante Werner Richlin, bisneto de Jacob Richlin) na verdade falava pouco disso. Quando falava do curtume, já se referia a este segundo, do lado de cá do rio. Aí, já pega a história do Augusto Richlin, filho de Jacob, que seguiu com este ramo de negócios.

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Jacob Rrichlin, a esposa Burgine e os filhos Gustavo, Augusto e Louise, no final de 1868. Acervo Helena Richlin. Reprodução Maria Cristina Dias

MCD – Ele veio com a família? Quem veio com ele?
HR – Vieram ele e a esposa Burgine. Ele nasceu em 1822, tinha 29 anos quando chegou, e ela, 23. Os filhos já nasceram aqui. Gustavo, em 1857; Augusto, em 1862; e depois uma menina, Louise, em 1868 (Louise casou-se com Otto Leonhardt Parucker, em 1890).

MCD – Como é que os negócios migraram do curtume para a área comercial?
HR – Funcionava assim: o Jacob tinha dois filhos e o curtume, com a produção, que precisava ser vendida. Na hora de dividir, um ficou com a parte da produção e o outro com a parte comercial. O Augusto deu continuidade ao curtume, à produção. E o Gustavo ficou com a parte comercial, que passou a envolver não só a produção do curtume, mas outras mercadorias também. Na época, a Casa Richlin era um “secos e molhados”, que vendia de tudo. A primeira loja, em 1906, ficava na esquina com a rua 3 de Maio. Depois foram sendo construídas as outras partes do imóvel. Onde hoje é o Cartório Rodrigo Lobo (1º Tabelionato de Notas, entre a rua das Palmeiras e rua 3 de Maio), ficava o estoque de farinha… Aquilo fazia parte da propriedade.

MCD – Quem foi Gustavo Richlin? Porque além de comerciante, ele foi político, prefeito de Joinville em uma época em que a cidade era controlada politicamente por personalidades de origem luso-brasileira…
HR – Ele foi político… O pai não comentava muito a respeito, não gostava muito de tocar no assunto porque era uma coisa que afetou de alguma maneira, ou economicamente ou emocionalmente, a família. Em política existe todo um desgaste. Mas pela documentação que eu vi, acho que ele gostava disso. A documentação me conta. Ele se dedicava. A impressão que tenho, com a pouca informação que me foi passada, era de alguém que queria fazer alguma coisas pela comunidade. Temos que pensar que Joinville, na época, era uma cidade pequena, com poucos habitantes. Acho que muitos imigrantes tinham isso… “O que eu posso fazer que traga benefícios para a cidade? De que forma eu posso colaborar, melhorar isso aqui?” E uma das formas é entrando na política. Ele foi prefeito (de 1899 a 1903 – na época, o chefe do Executivo era chamado de superintendente), foi cônsul da Suíça em Joinville, vereador, juiz de paz… e participou da vida social e cultural da cidade.

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Gustavo e Lina Richlin, com o filho Adolpho, avô de Helena. Final do século 19. Acervo de Helena Richlin. Reprodução Maria Cristina Dias

MCD – O Gustavo teve quantos filhos e quem são esses filhos?
HR – Ele se casou com Lina Stock (Sophia Augusta Lina Stock) e teve três filhos: Adolfo, que era meu avô, Adele Richlin Grant e Elisa Richlin Remlinger. Eu conheço eles (os avós e bisavós) assim: o pai chamava os pais de de Vati e Mutti. E daí até eu descobrir que o Vati era o fulano e a Mutti era a fulana, levou algum tempo. E aí cheguei no arquivo (Arquivo Histórico de Joinville) e os nomes iniciais, todos eles começavam com Johann… Depois Omama e Opapa. E até eu fechar o “Omama” com o nome dela e o “Opapa” com o nome do Opapa ,eu levei algum tempo. Porque cresci ouvindo Vati, Mutti, Opapa, Omama…

MCD – Quando chegou no Arquivo Histórico, você se deparou com nomes diferentes…
HR – Na verdade, já me deparei com isso em casa, porque de vez em quando eu pegava alguma documentação da família. A primeira vez que eu li em algum lugar “Burgine”, caí na gargalhada. Aí a mãe perguntou do que eu estava rindo. E eu disse: “Vê se isso é nome?” Mas ela disse:” É isso mesmo…” E aí fomos puxando uma “tripa”… Fomos no cemitério, fotografamos a lápide… para saber onde estão, onde não estão…

MCD – Então foram assim os primeiros contatos com a história da sua família?
HR – A gente fazia um tour pelo cemitério, se é que pode chamar assim. O Jacob e a Burgine estão na rua 15 de Novembro, no Cemitério do Imigrante. E o restante está no Cemitério Municipal. Mas aí você faz o “tour”.

MCD – Seus pais te levavam?
HR – Levavam. Levavam todo mundo para conhecer. Inclusive, o meu irmão (o administrador e comerciante Udo Richlin) levou os filhos para fazer o “tour”. E aí o Gustavo (sobrinho de Helena, filho de Udo), pequenininho, chegou no túmulo do Gustavo Richlin, olhou e disse assim: “Mãe, mas esse aí não sou eu, né?”. Hoje é tranquilo, mas naquele dia foi um susto. Como o Gustavo Richlin era metido em política, volta e meia a cidade resolve fazer uma homenagem para os antigos superintendentes… e normalmente quem vai é um representante da família – e advinha quem vai? Lá vou eu. Uma vez o Gustavo pequenininho disse: “Quem deveria buscar a homenagem não era você. Era eu. Eu devia ter ido com um terno, todo rasgado, cheio de barro para dizer que voltei para buscar minha homenagem”. A gente riu bastante… Isso porque ele tem o nome do trisavô – o que, na verdade, foi sem querer.

MCD – Então esse contato com a história da família começou desde pequenininha?
HR – Sim, desde pequenininha. Você lê alguma coisa e começa a perguntar. Aí você puxa um fio de novelo que vai longe. Aí o pai conta um pedaço, a mãe conta outro pedaço… você vai fazer uma visita ao cemitério e já te mostram e comentam… Os pais vão contando e passando as informações históricas e você vai crescendo… No meu caso, acabei trabalhando, profissionalmente, com uma documentação mais antiga. Então você começa a ser perguntado como funciona essa história e começa a olhar esta documentação – e também a perceber que tem alguns documentos guardados em casa. Começa a olhar com atenção e se souber fazer uma leitura dessa documentação, já vai fechando um quebra-cabeças. Foi o que aconteceu comigo.

MCD – Mas isso veio com a maturidade?
HR – Sim. No começo, quando criança, é tudo meio brincadeira. A gente ouve, começa a rir. Ou ouve a metade – a outra metade foge… Mas aos poucos vai percebendo que isso faz algum sentido. Por causa da profissão, eu acabei me aprofundando mais, pois ia descobrindo um documento aqui e ali que eu não sabia que existia. Um dia eu peguei um livro e tinha uma menção de que Gustavo Richlin era tradutor. Eu acabei virando tradutora meio por acaso, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas, poxa, se ele era tradutor, porque era cônsul suíço também, então tem alguma coisa aqui, que corre nas veias, que tem a ver com ele. Alguma coisa herdada, que você vai descobrindo aos poucos.

Casa de Jacob Richlin no início da imigração. Acervo Helena Richlin. Reprodução Maria Cristina Dias

Casa de Jacob Richlin no início da imigração. Acervo Helena Richlin. Reprodução Maria Cristina Dias

MCD – Ele morava na rua do Príncipe? A dona Jutta Hagemann conta que havia uma casa revestida com hera…
HR – Sim, na rua do Príncipe, onde hoje é a Caixa. Hoje é outro prédio. Eu ainda cheguei a ver uma parte daquela casa.

MCD – Como foi a fundação da Casa Richlin, em 1906? Você sabe como foi isso? Foi a partir da morte do Jacob? Porque ele nasceu em 1857 e a Casa Richlin é de 1906, ou seja, ele tinha quase 50 anos quando abriu a loja. Tem ideia do que ele fazia nesse tempo, se começou a vida profissional com o Jacob… Por que é uma lacuna…
HR – É uma lacuna e o pai não comentava muita coisa. Não sei como começou a Casa Richlin. A única coisa que foi passada é que o Gustavo assumiu a parte comercial e foi desenvolvendo, adequando… conforme aquela comunidade ia crescendo, ia precisando de outros artigos, de outras coisas. Então ele tinha contatos com São Bento do Sul, com Curitiba, com outras cidades para trazer os produtos que se precisava em Joinville – naquela época já era Joinville.

MCD – A gente conheceu a Casa Richlin como armarinho… Mas ela tinha outro foco, inicialmente?
HR – Ela foi se adaptando. O histórico é assim; o Gustavo tinha secos e molhados. Vendia um pouco dos artigos de couro produzidos no curtume, mas também tinha tecidos e até costureiras lá dentro. Eu tenho mesas ainda com as marcas do corte de tecidos. Quando se vai fazer os moldes, ficam as marcas na mesa. Tinha uma seção com tecidos e onde eram feitos os cortes. Eu lembro que a mãe (Helena Kölling Richlin) contava que ia lá comprar tecido para fazer os vestidos, no final dos anos 30, início dos anos 40. Era um misto de venda com outras coisas que na época se precisava. Não era como hoje que vamos comprar um vestido pronto. Comprava-se o corte do tecido, levava-se para casa. Ou sabia-se costurar ou se tinha uma costureira, a modista, que fazia a peça. E isso vai evoluindo e sendo modificado. Com o tempo já tinha mais alfaiates, costureiras – então tiramos isso do ramo, modificamos. Aí começam a surgir os grandes supermercados. Você é pequeno, como concorrer com um supermercado grande que compra em maiores quantidades e consegue preços melhores? Então, você vai mudando conforme o mercado. Assim, chegou-se nos armarinhos. Não é que não existisse antes. Mas passou-se a focar mais nessa área, que é a mais conhecida recentemente.

MCD – Vamos tentar situar isso no tempo. Na época do Gustavo Richlin ainda era secos e molhados, com uma grande variedade de produtos. Tinha ferramentas?
HR – Tinha, tinha o que você precisasse para cultivar teu jardim, por exemplo. Eu não vi, não peguei esta parte. Você achava de tudo.

MCD – Esse período foi de 1906 até… quando ele passou para o filho? Em uma vez que entrevistei teu pai, Werner Richlin, ele me falou que o Adolfo, pai dele, teve um período curto à frente dos negócios. O avô dele viveu muito e demorou a passar o negócio para o filho…
HR – É. Demorou a passar o negócio para o filho. O filho, quando assumiu, acho que em função do falecimento do pai, já estava em uma idade avançada, que precisava de algum filho tocando o negócio junto. Foi quando meu pai entrou na gestão.

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Casa Richlin em 1906, na esquina com a rua do Príncipe com a rua 3 de Maio. AHJ

MCD – Ele também falou que não herdou… que foi trabalhar fora da cidade, juntou dinheiro…
HR – Ele foi morar no Rio… Trabalhar em São Paulo, Rio, Minas. Como é algo que vem de herança, você tem outros herdeiros. Chega uma altura que, ou todo mundo fica, colabora e tem uma determinada função, ou recebe sua parte em dinheiro. É feito um acerto. E o meu pai entrou. Foi feito o acerto e definido quem vai tocar isto aqui, seja lá até quando for. Porque daí também você tem autonomia para direcionar o negócio, ver o que é viável e abrir mão do que não é. Porque se tem 10 herdeiros, cada um tem uma opinião… Meu pai já pegou a época dos supermercados e passou a fazer essa análise, vendo o que é competitivo, o que vale a pena investir mais, ou não vale mais a pena. E foi se adequando à realidade.

MCD – Helena, e aquele prédio lindo na rua do Príncipe? Ele foi construído em etapas, a partir de 1932, e cada etapa tem sua assinatura, sua data. Esta construção acompanhou esta evolução?
HR – Pelo que eu acompanhei, o raciocínio era “eu vou construir, com determinado objetivo. Que aquilo seja útil, seja viável para um comércio, para um escritório… Uma época era para melhorar a estrutura física da loja. Construía-se a parte nova e fazia-se a mudança da parte antiga para a parte nova. E depois, nos últimos tempos, já não era mais a estrutura física da loja. Ela já estava de acordo com o que se pretendia. Então as partes finais foram construídas para não ficar com terreno ocioso, baldio e para aquilo ter uma utilidade. Mas a ideia sempre foi que aquilo formasse um conjunto arquitetônico só, único. Para isso, brigamos para conseguir fazer a mesma fachada… porque na época (a parte mais recente, voltada para a rua 3 de maio é de 1989) já tinha a questão do recuo e uma série de detalhes.

MCD – Aquele prédio foi usado, alguma vez, como moradia?
HR – Os pais do meu pai, Adolfo e Lina, moraram na parte de cima da loja, na parte voltada para a rua das Palmeiras. Em cima da loja. Eu não cheguei a conhecê-los, sei do que o pai contava. Era um apartamento. Para os padrões de hoje, um baita espaço.

   Não vai ser um comércio como era até então. A vida é como um rio. A gente se depara com questões sobre o que fazer, como fazer… “Vamos respeitar este rio, deixar ele correr naturalmente?” Ou dizer: “Não, o comércio tem que ter continuidade?”. Há várias questões… O que uma pessoa vai fazer profissionalmente pelo resto da vida dela? Vai ser uma pessoa feliz, fazer uma escolha, ou vai abrir mão da escolha para dar continuidade ao comércio histórico que vem vivendo, sobrevivendo, se adequando ao longo dos anos? Nós optamos por deixar cada um seguir o seu rio, o seu caminho. E os caminhos dos descendentes são diferentes. Nenhum deles se sente com a vontade de seguir o comércio naqueles moldes. Seguiram outros caminhos e se sentem bem com isso. Meu irmão (Udo Richlin, quarta geração da família à frente da Casa Richlin) trabalhou por mais de 40 anos no comércio que veio de herança. Agora decidiu se aposentar. Vai manter o prédio e dar um novo uso. O prédio vai continuar sendo mantido, não vai se aceitar que seja feito qualquer coisa com ele. E vai ter um novo uso, em ramo diferente ou não, mas que vai deixar todo mundo feliz. Que vai preservar as suas características e a importância que tem para a cidade. Ao longo de todos estes anos a gente procurou não permitir determinadas coisas… permitir o uso com restrições para deixar da forma como está. Até porque, como é mais antigo, não se pode fazer qualquer coisa com ele, tem que se respeitar a estrutura que está aí.

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