Anos 90 – Um capítulo decisivo da história da ETT

Criada no início dos anos 60 para formar a mão de obra especializada necessária para a indústria, especialmente a Fundição Tupy, a Escola Técnica Tupy (ETT) logo se consagrou como um polo de excelência. Durante quase 30 anos anos, a escola foi mantida pela empresa, mas contou com a ajuda técnica da Alemanha e com verbas públicas destinadas ao ensino profissionalizante, que era incentivado pelo governo federal na década de 1970. No final dos anos 1980, porém, este quadro mudou. Marcada pela inflação descontrolada e por uma crise econômica que corroía o poder de compra e a capacidade de investimentos no País, a década de 80 ficou conhecida como a “década perdida” e seus efeitos ameaçaram até empresas sólidas. Com a Fundição Tupy não foi diferente e ela precisou reduzir o repasse para a manutenção da escola. Ao mesmo tempo, a Constituição de 1988 estabeleceu novas regras para a destinação de recursos públicos para instituições de ensino privadas – duas medidas que afetaram em cheio a tradicional ETT, que se viu em situação difícil para continuar as atividades. As discussões sobre a federalização eram abertas, já que há tempos boa parte dos recursos para a sua manutenção eram federais.

Escola Técnica Tupy. Crédito: livro "ETT-  O Desafio por Ideal"

Escola Técnica Tupy. Crédito: livro “ETT- O Desafio por Ideal”

Este era o cenário em 1990, quando o empresário Henrique de Loyola, na época secretário da Indústria, Comércio e Turismo de SC e presidente da Associação Empresarial de Joinville (Acij) assumiu a presidência do Conselho Empresarial da antiga Sesc (que depois tornou-se Sociesc). Era o primeiro empresário não pertencente à família Schmidt que assumia a função e tinha um desafio grande: revitalizar a escola e, com isso, garantir a sua continuidade. Loyola se valeu de sua capacidade agregadora para mobilizar e engajar o empresariado da região para a causa. Sob seu comando no Conselho, liderados pelo professor Sylvio Sniecikovski e com uma equipe profissional de peso, de 1990 a 1999, a escola passou por uma transformação, cresceu fisicamente e tornou-se mais abrangente, passando a oferecer outros cursos técnicos, garantindo sua sustentabilidade financeira e dando as bases para a futura Sociesc.

Em sua tese de doutorado em Engenharia de Produção, “A Adaptação Estratégia de uma Organização de Ensino Tecnológico Privada: O Estudo de Caso da Sociesc”, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o professor Sandro Murilo Santos recorre ao teórico Stephen Robbins para destacar que “quase todas as organizações estão tendo de se ajustar a um ambiente multicultural. As políticas e práticas de recursos humanos estão mudando para conseguir atrair e reter essa força de trabalho mais diversificada. As empresas estão tendo de investir mais recursos em capacitação de seus funcionários para melhorar as diversas habilidades requeridas para este novo desafio. A tecnologia está mudando o trabalho e as organizações.” Esta realidade que é tão atual, já era visível no início dos anos 90 e fazia com que as antigas instituições precisassem se reformular.

Nessa época, a ETT só oferecia cursos voltados à fundição e que atendia às necessidades da empresa que a criou, a Fundição Tupy. Para recuperá-la era preciso envolver a comunidade empresarial. Mas como? Ela era vista e reconhecida como uma escola da Tupy, o que afastava o interesse de outras organizações em investir no local.

Loyola propôs uma série de inovações para revitalizar a escola. Uma das mais decisivas foi a ampliação do leque de cursos oferecidos e o pagamento destes cursos pelo próprio aluno – mas, principalmente, por meio de bolsas de estudos concedidas pelas empresas. A estratégia do empresário foi direta: ia nas grandes organizações da região e conversava com seus proprietários (e muitas vezes fundadores), que eram seus pares e até sócios em outros negócios. “O que você acha de um curso técnico de refrigeração, de qualidade, para os seus funcionários?”, disse, por exemplo a Wittich Freitag, fundador da Consul. Diante da receptividade à proposta, ele continuou: “então, financie 20 bolsas de estudos na escola para a formação deles”. E assim foi em empresas dos setores Plástico, Metalmecânico, entre outros, que antes não investiam na ETT porque ela só formava profissionais para fundição – principalmente a Tupy.

Ao mesmo tempo executava internamente uma reestruturação gerencial e pessoal, com terceirização de serviços. E investia na ampliação da capacidade da escola, com a construção, de forma simples, de mais um andar para abrigar os cursos. “Era só tirar o telhado, botar tijolos e colocar o telhado lá em cima. Dobrou a capacidade de alunos”, resume Loyola. Com isso, em 1992 a escola voltou a ter equilíbrio financeiro e em 1993 as empresas e os alunos já cobriam 80% dos custos dos cursos, conforme consta no livro “Henrique Loyola – Colecionador de Desafios”, onde o empresário conta a sua trajetória. “Foi possível iniciar o atendimento das necessidades de formação profissional das empresas, elevar a produtividade e qualidade de todas as atividades e ampliar as ações de apoio à pequena e microempresa”, conta no livro. A repercussão logo apareceu e ainda naquele ano o jornal “A Notícia” publicava reportagem sobre o afastamento da ideia de federalização da instituição.

Em sua tese de doutorado, o professor Sandro traça um retrato desse período: “O início da década de 90 é marcado por uma longa retomada a normalidade de funcionamento e expansão da instituição. As medidas administrativas tiveram como objetivo a reestruturação financeira e a consolidação e expansão das atividades de ensino, serviços e pesquisa. Ainda percebe-se uma pequena tendência de buscar recursos para o custeio em órgãos públicos, mas que paulatinamente foi substituída por uma posição administrativa mais condizente com a época. Esta nova visão buscava recursos públicos através de financiamentos para pesquisas e investimentos, ao mesmo tempo em que procurava a autossuficiência nos recursos para o custeio. Esta autossuficiência era buscada, principalmente, através da prestação de serviços a terceiros e mensalidades dos alunos dos cursos técnicos e extensão. Também houve uma transformação no sistema de contribuição das empresas sócias, pois os recursos que eram doados passaram a comprar bolsas de estudo para a distribuição de acordo com os critérios que estas empresas adotassem. De doações a fundo perdido estes recursos passaram a ser investimentos no aprimoramento dos funcionários das empresas e na área social. Durante os primeiros anos de 90, percebe-se que mesmo com o intenso crescimento no faturamento, a SOCIESC sempre solicitou materiais diversos e equipamentos para as empresas da região e foi em grande parte atendida. Sua reputação de organização séria, sua abertura para parcerias e envolvimento dos representantes de empresas na administração, foram fatores que facilitaram o atendimento destes pedidos. com os critérios que estas empresas adotassem”.

O período de revitalização na década de 90 proporcionou o embasamento para o futuro da instituição. Dados do livro “Henrique Loyola – Colecionador de Desafios” mostram que houve um crescimento de 76% na área construída da Sociesc e foram instalados os centros de tecnologia de Mecânica de Precisão (1990), Tecnologia em Informática (1995) e Tecnologia em Materiais (1998). “Para ampliar a receita, a entidade passou a cobrar por serviços prestados a terceiros nas áreas de Fundição, Ferramentaria e Tratamento Térmico e credenciou-se ao Inmetro para o fornecimento de serviços de sofisticada excelência tecnológica”, consta no livro. É dessa época também o estabelecimento do Instituto Superior Tupy, a unidade de São Bento do Sul e a parceria com a Fundação Getúlio Vargas para os cursos de pós-graduação. Com seu network, Loyola conseguiu que o curso de graduação Engenharia de Fundição fosse liberado em três meses – algo que geralmente leva três anos. O curso foi uma novidade no País e, segundo o empresário, grandes empresas da área como a Votorantim, da família Ermínio de Moraes, até então precisava enviar os profissionais para cursá-lo fora, nos EUA.

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