Dr. Adauto e as histórias vividas após o golpe militar de 1964

Dr. Adauto, durante a homenagem na OAB Joinville. Fonte: Dr. Adauto Advocacia

Dr. Adauto, durante a homenagem na OAB Joinville. Fonte: Dr. Adauto Advocacia

No início de setembro, o dr. Carlos Adauto Vieira foi homenageado pelo Conselho da 9ª Subseção da OAB pelos 60 anos de advocacia. Ao longo de todos estes anos, ele foi atuante não só na advocacia, mas também na vida cultural e política de Joinville. Foi fundador da OAB em Joinville e hoje é o mais antigo advogado em atividade em Santa Catarina. Entre muitas outras distinções, é sócio-fundador da Academia Joinvilense de Letras (AJL), onde já foi presidente e atualmente ocupa o cargo de vice-presidente.

Em 2014, entrevistei ele para uma matéria especial no jornal Notícias do Dia sobre o golpe militar de 1964. Na conversa, ele contou um pouco das suas histórias naquele período, onde foi preso três vezes, acusado de ser subversivo.

Na época, optei por manter a fala dele na íntegra, em primeira pessoa, e a organizei por tópicos. O texto é longo e dividi ele em duas partes. A primeira parte, segue abaixo. A segunda será postada na próxima semana.


O país durante a ditadura não melhorou em nada” – Considerado subversivo e preso três vezes, o advogado Carlos Adauto Vieira revela um pouco das histórias vividas após o golpe militar de 1964

Maria Cristina Dias, especial para o Notícias do Dia

Personagem ativo da cena joinvilense desde o final dos anos 50, o advogado Carlos Adauto Vieira, de 81 anos, era considerado subversivo pelo regime militar instalado com o golpe de 64, foi preso três vezes e temeu pela própria vida. Em conversa com o ND, ele narra acontecimentos que viveu naquele mês de março, conta histórias ora tensas, ora divertidas do período em que esteve preso, fala de sua amizade com o deputado estadual Paulo Stuart Wright, cassado nos primeiros tempos da ditadura e desaparecido. Também revela as incertezas e inseguranças de quem trabalhou e criou filhos em um período de exceção. Com a experiência de quem estava presente neste momento decisivo da história, ele declara que “o país durante a ditadura não melhorou em nada”. E garante: “Não se pode trocar a liberdade por nada. Por pior que ela seja, é melhor que qualquer outra coisa”.

Os dias que antecederam ao golpe

No dia 23 de março de 1964, o deputado estadual Paulo Wright, o padre Alípio de Freitas e eu fizemos um comício em Joinville, em cima de um caminhão, denunciando a possibilidade do golpe militar. Já se falava disso e nós três tínhamos certeza que ia acontecer. E o outro o objetivo era fazer os golpistas botarem a cabeça para fora. Queríamos ver se eles realmente estavam organizados em Joinville. À noite, nós fomos para a praça do Expedicionário [a praça em frente à Estação Ferroviária]. Começamos o comício e vimos que foram se aproximando pessoas, todas elas com lenços coloridos no pescoço. E, claro, nós identificamos, são os golpistas. Embora fossem civis eram golpistas, estavam a favor do golpe de qualquer jeito. Queriam acabar com o comício, mas nós não deixamos subir no caminhão, enfrentamos, fizemos o comício até o fim. Juntou muita gente na praça. No dia seguinte os dois companheiros foram embora para Florianópolis. Eu fiquei aqui.

O dia 31 de março de 1964

A coisa se desencadeou no dia 31. Eu entrei em contato com a UNE, no Rio de Janeiro, porque o presidente era o Marcílio Krüger, que era de Brusque e primo da minha falecida esposa. Perguntei: Marcílio, como estão as coisas aí?”. “Está tudo tranquilo”. E eu avisei: “Abre o olho que eles vão dar o golpe”. Na noite de 31 ainda telefonei para ele. “Marcílio, te escapa, porque se eles te pegarem, você não escapa com vida”. São Paulo já tinha aderido ao golpe. Minas também. Diante disso, ele pensou e desapareceu. Saiu do País. O sogro era coronel do Exército e deram um jeito de embarcá-lo para fora.

O relacionamento com o deputado Paulo Wright

O Paulo Wright resolveu se integrar à luta armada. Foi cassado em 1964, logo em seguida ao golpe. Logo em seguida à cassação dele, ele passou em Joinville e me convidou. Foi no meu escritório e disse: “Eu tô indo para a luta armada. No tapetão nós não vamos ganhar”. Eu disse: “Olha Paulo, eu não tenho condições de aderir. Sou contra, mas não tenho condições. Tenho família, mulher, duas filhas, escritório aqui para manter. Não posso ir. Posso ajudar de todas as formas possíveis, mas ir pessoalmente, não”. Ele foi. E logo depois a gente soube que ele tinha desaparecido.

O apoio ao golpe em Joinville

Aqui não houve um movimento muito grande. O dr Dieter Schmidt fez um comício dentro da Tupy a favor do golpe, inclusive me citando. O empresariado de Joinville aderiu ao golpe. Praticamente todo mundo apoiou. Joinville já era conservadora pela sua própria formação. Havia um pavor de um golpe comunista, de uma intentona comunista outra vez. Era uma coisa terrível para todo mundo. Isso se discutia na associação comercial, nos sindicatos, em toda parte.

Os primeiros dias

Não se sabia bem o que que vinha, o que ia acontecer. Houve mudanças. Os sindicatos passaram a ser dirigidos por pessoas de confiança do golpe, principalmente os sindicatos operários. Foram nomeados interventores. No dia 1º de abril eu voltei a Joinville. Estava temeroso que pudesse acontecer alguma coisa e levei a família para a casa de um irmão, em Jaraguá. E voltei. Quando cheguei em casa já tinha um elemento policial esperando, de jipe. E disse: “Eu vim aqui para convidar o senhor… O comandante do Batalhão quer conversar consigo”. Fechei meu carro, guardei, embarquei no jipe e fomos para o batalhão. Quando cheguei, já havia presos. No primeiro dia. Lá de São Francisco do Sul. Havia o Romualdo Ferreira de Deus, que era presidente do Sindicato dos Arrumadores e o doutor Alfredo Darci Aires, que era advogado do Romualdo e tinha sido prefeito de São Francisco. Se não me engano era presidente do PTB.

Eu sabia que estava sendo preso. Tinha certeza que eles iam me prender. O golpe já tinha sido feito. E havia uma pressão contra mim, das empresas, porque eu era o único advogado trabalhista da cidade. Era especializado em direito do Trabalho e Previdência Social e isso não existia em Joinville. Eu é que comecei. Tanto é que participei da vinda da junta de Conciliação, da primeira, da segunda, terceira junta. Comecei em 8 de fevereiro de 57. O meu trabalho profissional espantava… porque as empresas não tinham nenhum interesse em respeitar a lei. Eu era do PTB. Ativo. Mas era só militante.

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