Dr Adauto e a prisão no 13º BC, durante o regime militar

Dr. Adauto, na Academia Joinvilense de Letras.

Dr. Adauto, na Academia Joinvilense de Letras.

Esta é a segunda parte da entrevista com o advogado Carlos Adauto Vieira, de 81 anos. Nela ele continua a contar o que viveu no período militar, quando foi preso três vezes, acusado de ser subversivo. A matéria foi publicada em 2014, no jornal Notícias do Dia.

A primeira parte pode ser conferida clicando aqui.


A prisão no 13º Batalhão de Caçadores

Aí começaram a chegar os presos de Joinville, de São Francisco, de Araquari. Aqui da região. Muita gente. Ficamos presos, distribuídos em celas. Ficamos vários dias lá. Até que veio uma ordem para que nós abandonássemos as celas e entrássemos em um caminhão que estava nos esperando. Daqui fomos levados para Florianópolis, na carroceria do caminhão. Lá fomos entregues à penitenciária do Estado, à disposição do coronel Carlos Hugo de Souza, da PM, que se tornou responsável pelo pavilhão em que ficamos presos, que era de presos políticos. Lá nós éramos 91, de todo o Estado. Tinha gente que não tinha nada a ver. Era até engraçado. Havia um comunista em Florianópolis conhecido como “Mino”, era eletricista, Manuel Alves Ribeiro. Aí apareceu um cidadão preso lá, bem vestido, arrumado… “Que foi que houve?” “Não sei, eu ia subindo o ônibus, eu sou representante comercial, e me prenderam… o perguntaram o meu nome…” “Qual é o teu nome?” Era Manuel Ribeiro. “Te confundiram com o Mino”, eu disse.

A vida na penitenciária de Florianópolis

Eu fui eleito responsável pela vida interna no quartel. Então tinha a obrigação de ver as coisas que precisávamos, que faltavam… material de higiene, cigarros. E éramos tratados no regime de presos da penitenciária. Sem interrogatórios… Nada.. Até porque tínhamos conhecimentos. O comandante da penitenciária era um amigo nosso de infância. Nós fazíamos os pedidos, passávamos para o coronel Hugo e ele passava para o comandante do batalhão, que levava para o almirante Silveira Carneiro, comandante do 5 distrito Naval. Fiquei 60 dias. Eles inclusive pertmitiram que a minha família fosse visitar. Minha família, que morava em Folrianópolis, levava comida e repartíamos lá. O único senão foi com as minhas filhas, pequenas, que foram me visitar. Elas passaram e me viram deitado e correram para mim: “o pai, o pai”. E um policial encrencou: “passa daqui”… Eu fiquei 60 dias, mas teve gente que ficou 90 dias. O único que sofreu problemas maiores foi o dr. Addison. Ele foi transferido para Curitiba, ficou tuberculoso e morreu na prisão. Não cuidaram dele e ele também não se cuidava muito. Era de São Francisco do Sul.

Os receios, as incertezas

Quem tinha uma noção de história, como era o meu caso, achava que o maior perigo era os EUA arrastarem o Brasil para uma terceira guerra mundial. Que íamos ficar presos lá, que íamos ser julgados, que íamos ser torturados… tudo isso nós sentíamos. Toda ditadura é igual. Não tem diferença.

A comunicação com o “lado de fora”

Nós, que estávamos presos, criamos um sistema de comunicação como exterior, com o lado de fora. Pedimos graxa de sapato e papel de carta para escrever. Organizamos um alfabeto e uma determinada pessoa ia para um casa defronte ao nosso pavilhão, do lado de fora da penitenciária, e passava as notícias com aquele alfabeto. Um código nosso. E como eu tinha muitos clientes na penitenciária, que eu tinha defendido… um deles veio de manhã cedo, peguntou quem era o dr. Adauto. E disse: “O “Seda” mandou dizer que está a sua disposição. O Seda eu defendi, ele matou um cidadão bobamente… mas matou, né? E ele tinha uma certa projeção lá dentro, na casa. Perguntaram o que a gente queria. “O que mais me interessa aqui é saber notícias de fora”. E ele disse: “A partir de amanhã o senhor vai receber notícias”. No dia seguinte, o barbeiro chegou lá e perguntou quem era o dr. Adauto. “Eu vim aqui para fazer a sua barba”. Eu já tinha feito a barba de manhã, mas sentei, ele passou a toalha em mim, passou sabão… e disse: “No meu bolso esquerdo tem uma porção de coisas para o senhor. Mete a mão e tira com cuidado”. Tirei do bolso dele e coloquei no meu. Eram recortes de jornal. Vinha o “Estado de São Paulo”, “Folha de São Paulo”, Aí isso se tornou meio perigoso e eles passaram a fazer diferente. Compravam o jornal de esportes e colavam as notícias no jornal. Passavam pela guarda e entravam. Então, a gente sabia o que estava acontecendo lá fora.

A volta para Joinville

Eu vim muito cauteloso para Joinville. Me apresentei logo no Blue Bar, na rua do Príncipe. Cheguei e quem me recebeu com muito regozijo foi o dr. Francisco de Oliveira, que era juiz de direito. Eu sempre ficava ali, tomava um café com ele, batia papo. “Voltou! Estávamos esperando o senhor”… Isso gelou quem tivesse reação contra mim. Tomei um café e voltei para o escritório. O meu escritório tinha sido invadido pelos golpistas. Ficava na rua Henrique Meyer, número 20. Viraram o escritório de pernas para o ar. Não levaram nada, mas queimaram um álbum do Picasso. Eu tinha recebido do Museu de Arte de São Paulo, um álbum de fotografia maravilhoso, com fotos dele trabalhando. Picasso era comunista… então queimaram. Foi o único prejuízo que eu tinha. Claro, eu tinha na época mais de 100 clientes. Eram 100 pastas que foram reviradas, jogadas para o ar. Tive que botar aquilo em ordem. Depois, o meu trabalho aumentou. O pessoal começou a me valorizar mais, “ah, ele luta por nós”…

As relações na cidade

Vou contar uma história que gosto de contar porque é gozadíssima. Uma noite fui jantar lá no Espinheiros, onde tinha aberto um restaurante. Eu e minha esposa. Só tínhamos nós dois. Aí chegou um casal de empresários – ele e a esposa. Eu olhei para eles e ele falou: “Tão sozinhos? Podemos sentar aí?” E sentou. “Puxa, mas que bom que você voltou… como foi…”. Aí eu falei que houve muita gente que pensou que a gente ia ser mandado para Fernando de Noronha… mas eles tiveram bastante consciência e não fizeram nada demais. “E aqueles que depuseram contra nós – ele tinha prestado depoimento – pensam que os militares vão esconder estes depoimentos… mas eles fazem questão de mostrar… eu, por exemplo, li os meus. Sei perfeitamente quem depôs contra mim”. Ele olhou para a esposa e disse: “Puxa, esqueci um negócio em casa. Desculpas, vamos até em casa e já voltamos” E sumiu. Quando me via, dobrava a esquina. Quem era, eu não vou dizer. Ele tá morto, a mulher também tá morta…

As notícias sobre desaparecimentos e torturados

Isso foi no AI-5, em 68. Houve caso de tortura, de elementos que foram presos e torturadas. Isso a gente soube depois. O único desaparecido de Santa Catarina, que eu me lembre, foi o Paulo Wright.

Ele era filho de pastores religiosos americanos. Era de uma educação finíssima, inteligente e se interessou, apaixonou pelo problema dos pescadores de Santa Catarina. Era de Joaçaba, mas quando entrou para a política veio para Florianópolis. Vivia visitando as praias, organizando colônias de pescadores. Muito inteligente, tranquilo. Era do PSP – Partido Social Progressista, do Adhemar de Barros. Ele foi cassado logo na primeira leva. Cassado, ele resolveu reagir indo para a luta armada. Não sei que grupo. Foi para São Paulo. Eu tenho a impressão que ele entrou porque tinha uma namorada, esposa, que era radical de esquerda. Era uma moça de Laguna, Marlene Sochas. Tenho a impressão… pois ela era… Na hora que deu o golpe, ela sumiu. Sabia perfeitamente que deveria ser presa.

Os grupos de esquerda

Havia muitos grupos pequenos que apoiavam a esquerda. Veladamente. Estudantes, profissionais liberais. Grupos de 10 pessoas… Não atraia gente para nada. Vai fazer o quê com 10 pessoas? Sempre me lembro um amigo que era comunista… Tinha participado da revolução de 35, de 22 em 30, foi com Getúlio. Ele morava em Barretos, São Paulo. Houve uma reunião do partido com estudantes, universitários… e eu estava presente. Eles combinaram e eu fui lá para ouvir. Aí o líder comunista da reunião leu um manifesto de Luiz Carlos Prestes dizendo que o País estava pronto para a revolução. Esse líder comunista falava empolgado. Isso em 55, 56… Esse amigo pediu a palavra e disse assim: “Vocês nunca participaram de um movimento revolucionário, não sabem como é. Estão iludidos. Se nós sairmos daqui agora para fazer essa revolução que tá aí no manifesto, na primeira ‘coxilha, eles nos babam de laço’”. Eu fiquei pensando… Depois conversando, ele disse: “Isso não é brincadeira. Nós não temos armas, não temos organização, administração do movimento… não temos nada. Eles estão organizados”. Era um movimento utópico.

De volta a Florianópolis

Fui preso de novo em 65. Fui chamado a Florianópolis, não fui nem levado. Fui de ônibus e fiquei preso. Houve uma confusão. Eu tinha ido a Curitiba com a minha esposa para um médico, de coluna. Na ida para o consultório, descemos a rua 15, onde se situava a reitoria da Universidade Federal do Paraná, cujo reitor era então o ministro da Educação. Havia um aglomerado de estudantes, um protesto, e nós íamos passando. Eu fui filmado, fotografado. Nem sabia que estavam filmando, nem sabia do protesto. Aí, um general que era mais ou menos o cabeça da revolução lá em Florianópolis [Veiga Lima], e que era amigo do meu pai, disse para ele: “Seu filho não aprendeu a lição. Estava lá no protesto de estudantes em Curitiba. Telefona para ele, diz para vir a Florianópolis que eu quero conversar com ele”. Meu pai telefonou. Peguei o ônibus e fui. Fui lá no gabinete, me apresentei, ele me tratou com familiaridade: “Carlinhos, o que tu estavas fazendo em Curitiba, no meio dos estudantes?”. E eu disse: “General, vai me desculpar, eu não estava no meio dos estudantes. Estava levando minha esposa ao médico”. “Se você pode provar isso, trate de provar. Você vai ficar em Florianópolis três dias. Não saia. Posso prender você onde você estiver. E me traga as provas. Aí eu telefonei para minha esposa e disse: “Venha para Florianópolis e traga tudo, todos os exames que fizemos lá”. Ela pegou o carro, as duas filhas e foi para Florianópolis. Levei, mostrei, falei para conferir as datas. Ele falou: “Ah, Carlinhos, ainda bem. Estava preocupado. Você sabe que eu sou amigo de sua família, você já esteve preso, filho… Pode voltar para Joinville, mas não se meta nessas coisas, não. Nós estamos de olho em você”. Tá certo!

A terceira prisão

Fui sequestrado. Dia 3 de outubro de 67. Por elementos do Exército, mas a paisano. Fui levado inicialmente para lugar incerto e não sabido, segundo a nota que foi publicada no jornal. Fui levado aqui para o quartel, na época o 13º BC. Fiquei em uma sala sozinho. Não tinha nada, só uma cadeira. Eu estava na frente de casa esperando o meu secretário. Era uma sexta-feira e ele ia trazer uma costela para nós assarmos e comermos à noite. Parou um fusca, fusca velho e o sujeito perguntou: “Você sabe onde mora o dr. Adauto?”. “Sou eu o dr. Adauto. O que que falta?” “ O senhor está preso”. “Outra vez?” “Entra aí no carro e não fale com ninguém”. Então eu falei: “Calma meu amigo, eu tenho que dizer para a minha senhora que estou sendo preso, dar uma orientação para ela. Caso contrário, eu vou desaparecer e daí?” Aí fui lá, peguei todo o dinheiro que tinha e dei para ela – e falei para avisar para a OAB eu que estava sendo preso. No fim, me levaram para o quartel, me entregaram para um oficial, que me trancou em uma sala. Depois, voltou, me levou para outra sala e disse que de madrugada eu ia ser levado para outro lugar. Quando vieram me buscar, embarquei novamente em um fusca e fomos embora. Claro que eu conhecia a estrada, era para Curitiba. Quando estávamos subindo a mossoroca no lado de lá, o carro pifou, parou. Aí um dos dois que estava me levando saiu, foi lá, olhou, voltou… fechou o motor e disse: “Dr, faz um favor. Ajuda a empurrar, vamos ver se ele pega na banguela”. Aí eu disse assim: “Você vai me desculpar, mas eu não posso fazer esse favor a vocês. Porque se eu sair daqui de dentro, vocês vão me dar dois tiros, me jogar ali dentro da mossoroca e vão dizer que eu tentei fugir. Então, se vocês quiserem me matar, vão ter que me matar aqui dentro, porque eu não vou sair”. O cara entrou. bateu a porta com raiva, o motorista virou a chave e o carro foi embora. Iam me matar.

Delação e acareamento em Curitiba

Aí fomos para Curitiba, chegamos lá de madrugada. Me levaram à presença do Coronel Fernando de Carvalho, que perguntou: “Qual o seu nome?” “Carlos Adauto Vieira”. “Humm, o senhor que é o famoso dr Adauto?” Aí eu já passei mais uma. Coronel, eu não sei porque me prenderam. E ele disse: “Tem aqui uma delação contra o senhor. Um cidadão que nós prendemos disse aqui que o senhor era um grande representante do partido comunista em Joinville”. O senhor vai me desculpar, mas é tudo mentira, não tenho nenhuma ligação com o partido comunista. Gostaria de fazer uma acareação com o este cidadão”. E ele disse que ia mandar chamá-lo. Veio o cidadão, aqui de Joinville. Era conhecido, foi presidente do partido comunista. Sentou do meu lado. Aí o coronel perguntou e ele disse assim… que recebia o jornal do partido, a Voz Operária, e levava para o dr Adauto, que pegava o dinheiro, dava para mim e eu trazia para o partido. “Como era o dr Adauto?” “Ele era advogado, tinha um escritório na rua Blumenau. Tinha um secretário, um senhor bem moreno, alto”. Você se lembra bem do dr Adauto? Tem alguém aqui nessa sala que se pareça com o dr Adauto? “ “Não!”. Eu quis dar um soco nele. E disse: “Coronel, a acareação mostra que ele nem me conhecia. Eu não sei nem quem é esse tipo aí”. Mandou levar o sujeito e eu perguntei se ele ia me liberar. Não. Então eu falei que gostaria que ele fizesse um termo dessa acareação, dizendo que ele, que me delatou , não chegou a me reconhecer. Fiquei 27 dias preso em um banheiro, com a roupa no corpo e a sandália de dedo. Ninguém sabia, incomunicável. Fez o termo. Eles são muito formalistas, legalistas.

A saída de Curitiba

Isso aí foi uma das coisas mais bonitas da minha vida. Ninguém sabia onde eu estava. Então, um grupo de advogados que me conhecia, em Joinville, resolveu me procurar. Organizaram um torneio entre as equipes militares, junto com o Fedato Esportes, que também era muito meu amigo. O Fedato dava troféus, a bola e os advogados organizavam os times nos batalhões, para jogar. E aproveitavam e perguntavam… “tem muita gente presa aí… e tal”. Conseguiram ir lá no quartel do Boqueirão e aí o Antônio Acir Breda perguntou para um praça se tinha muita gente presa ali. “Agora não tem mais. Só tem um lá naquela janela com tela que a gente não sabe quem é”. Ele chegou embaixo da tela do segundo andar, e gritou: “Adauto!”. E eu disse: “Quem quer falar com ele?” Ele, então, deu a senha: “É o Beto Fumaça”. E eu falei: “Diz pro Beto Fumaça que sou eu que estou aqui, para ele pedir para a Ordem dos Advogados impetrar um habeas corpus para eu sair dessa pocilga”. E realmente a OAB se reuniu com o Supremo Tribunal Militar no Rio de Janeiro, impetrou Habeas Corpus e eu fui liberado. Foram 27 dias.

Os anos seguintes

Depois fiquei dois anos sendo processado, mas em liberdade, trabalhando. Mas fizeram o que puderam para me machucar. O delegado de polícia telefonava para mim: “Dr. Adauto, ligaram lá da auditoria militar para o senhor estar lá às nove da manhã”. Eu ia de maletinha com pijama, livro para ler, máquina de escrever, papel… Chegava lá, perguntavam o nome do pai, da mãe… “Era só isso, dr. Adauto. Só queríamos confirmar. Tá liberado” Passava dez dias, outra chamada. Isto em 68, 69, até ser julgado. Fui absolvido por unanimidade. Nada havia de subversivo.

Sair do País para onde?

Eu fazia um raciocínio assim: Em 67, eu já tinha quatro filhos. Ia sair do País para onde? Se tivesse alguma ligação lá fora, mas não tinha ninguém. Houve colegas que conseguiram isso, que fugiram da prisão, mas tudo dentro de um esquema de partido. Mas os comunistas não gostavam de mim. Eles gostavam menos de mim que os militares. Porque eu esculhambava com eles. Falava: “Vocês não estão preparados para nada. É pura ilusão”.

O Brasil durante a ditadura

O país durante a ditadura não melhorou em nada. Havia uma corrupção que não podia ser denunciada porque o cidadão denunciante era logo chamado de comunista e ninguém queria passar por isso. Porque de noite, quem batia na porta não era nem a a visita nem o padeiro. Era um pelotão. É só analisar o país.

A defesa da volta do regime de exceção

É um pessoal que nunca esteve ligado a coisa alguma, nunca participou de nada. Está com raiva do PT no governo, com justificada razão, e acha que um golpe militar de novo poderá tirar o PT do poder e levar País para a frente. Isso é uma ilusão. Primeiro porque os militares estão muito bem organizados. Se precisar, eles, na hora oportuna, vão atacar o governo, tomar uma posição. Isso é claro. Nenhum deles é bobinho. Estão analisando tudo. Na hora em que eles acharem que é demais, eles tiram.

A lição que ficou

Que não se pode trocar a liberdade por nada. Por pior que ela seja, é melhor que qualquer outra coisa. Sem querer cair naquele ditado.. Democracia é uma merda, mas não inventaram nada melhor.

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