Pessoas – Marlete Cardoso e a leitura que revoluciona a vida

Marlete Cardoso e "Coração Guarani"

Marlete Cardoso e “Coração Guarani”

Em 2015, escrevi a história da professora e escritora e Marlete Cardoso.Era a história de uma menina que descobriu na leitura um mundo imenso, que podia mudar uma vida – e mudou. Na época, ela estava prestes a publicar o primeiro – e tão sonhado – livro. “Coração Guarani”, foi lançado durante a Feira do Livro de 2016, com ótima receptividade. Publicado pela Editora Areia, ele é uma lenda indígena sobre a criação dos animais e está a venda nas livrarias de Joinville (SC).

“Um encontro com duas indiazinhas no centro de Joinville me deixou muito incomodada e a ideia do livro foi tomando forma. Sendo que a ilustradora Maria Lúcia foi uma das primeiras incentivadoras. Desde o lançamento, tenho visitado escolas e levado um pouquinho da cultura indígena nos dias atuais”, diz a autora, que está preparando outras duas obras infantis, ainda sem previsão de lançamento.

Confira aqui, a trajetória de Marlete Cardoso, publicada originalmente no jornal Notícias do Dia/Joinville. E deixe seus comentários ou cadastre-se no site para receber mais histórias inspiradoras como essa ou histórias da cidade e região.


A leitura que revoluciona a vida – Marlete Cardoso parou de estudar ainda menina, mas conseguiu mudar o próprio destino, se formou professora e hoje está prestes a lançar seu primeiro livro

Maria Cristina Dias, especial para o Notícias do Dia

Como tantas outras meninas, Marlete Cardoso sonhava em ser professora. Mas o destino parecia apontar para outro caminho. Seu pai achava que mulher não precisava estudar e ela saiu da escola na quarta série primária. Ler era um desafio. Os livros que entravam em casa eram controlados, já que as meninas não podiam ler qualquer coisa. Mas aos 15 anos ela começou a trabalhar na antiga Livraria Record, na rua 15 de Novembro. Logo descobriu a Biblioteca Pública, ali do lado, na rua 9 de Março. E despertou para um mundo que era muito maior do que o que ela podia imaginar. “Foi uma revolução. Eu nunca tinha ido a uma biblioteca. Tive a sensação de que, até ali, eu estava dormindo”, tenta explicar Marlete que hoje, aos 53 anos, é professora, escritora e está prestes a lançar o seu primeiro livro individual. E “ leitora eterna”, como ela mesma se define.

Nascida em 1961, Marlete conta que sempre gostou de brincar de dar aulas e não raras vezes aborrecia os primos com a mania de ensinar a falar corretamente. Na sua família, porém, o estudo entre as mulheres não era incentivado. O pai, laminador em uma empresa de Joinville, valorizava os estudos, sim. Mas para o filhos homens. Para as meninas, que iam mesmo casar e cuidar dos filhos, ler e escrever era o suficiente. Assim, Marlete e as duas irmãs mais velhas saíram da escola quando terminaram o quarto ano primário, o correspondente hoje ao 5º ano do ensino fundamental. Ela tentava ler na adolescência, mas o acesso aos escritos era difícil. Lia jornais velhos, revistas que escapavam do crivo do pai e alguns clássicos que conseguia pegar aqui ou ali.
Essa história começou a mudar quando ela tinha 15 anos e se empregou na Livraria Record. Logo no primeiro ou no segundo dia, a proprietária pediu que ela organizasse uma pilha de livros e lesse as capas e orelhas para se familiarizar com eles. Então entrou um freguês e pediu “Gabriela Cravo e Canela”. A menina, que nunca tinha lido Jorge Amado respondeu: “Gabriela, tem. cravo e canela, não”. Ele percebeu que a adolescente não fazia ideia de que livro era aquele e a ajudou a procurar.
Em pouco tempo, quando a livraria fechava, às 18h, ela seguia para a biblioteca, que ficava aberta até às 19h. Lá, ela fez o que nunca havia conseguido fazer então: ler, ler muito. Como ainda não podia estudar, tinha as noites e os finais de semana livres para mergulhar nos livros que a fascinavam.

Aos 17 anos, começou a namorar. Mas o rapaz, mulato, não agradou ao pai dela, que proibiu o namoro. “Pensa em um homem bravo!”, recorda Marlete. O pai sabia que ela queria estudar e propôs um pacto para, definitivamente, por um fim ao romance: se ela deixasse o moço, ele permitia que ela voltasse aos estudos. “Eu aceitei!”
Fez supletivo para terminar o ginásio – e viu o pai se emocionar quando se formou na 8ª série. Começou a fazer o Magistério no Colégio dos Santos Anjos, e concluiu o curso no Colégio Celso Ramos. A vida seguiu seu curso. Ela foi trabalhar, casou e, quando vieram os três filhos, ficou sete anos sem lecionar. Neste período, entretanto, completou o curso de Pedagogia na ACE. “O que me movia era a vontade de saber mais, de ensinar. Pensava em voltar a dar aulas”. E voltou. Primeiro na rede estadual. Depois na rede municipal de ensino, sempre para crianças pequenas.

A vontade de escrever era grande, embora sem muitas pretensões. A cada ano, compunha seus cadernos de plano de aula como se fossem livros. Também escrevia cartas para seus amigos e parentes. “Quando fui na biblioteca pela primeira vez e vi as estantes cheias, achei que tudo já tinha sido escrito. Escrever também estava nos meus planos, mas isso ficou guardado em mim devido a essa impressão”, constata.

Com o tempo, isso mudou e Marlete passou a escrever contos e crônicas. Hoje, seus escritos estão presentes em quatro das seis antologias da Confraria do Escritor de Joinville, e ela prepara o primeiro livro-solo, “Coração Guarani”.

Mais que ser professora, como desejava, ela conseguiu estudar, ler e ser lida. E quem pensa que ela se arrependeu de ter aberto mão do moço mulato por quem estava enamorada, está muito enganado. O mundo deu voltas e eles não ficaram muito tempo longe um do outro. Voltaram a namorar e no último dia 13 de abril comemoraram 30 anos de casados.

 

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