Casa Fleith e as histórias da Estrada do Pico

No interior de Joinville, nas estradas da área rural, ainda é possível ver construções centenárias que nos remetem ao modo de viver das pessoas da região a partir da segunda metade do século 19 e primeira metade do século 20.

A Casa Fleith é uma delas. Situada na Estrada do Pico, em Pirabeiraba, ela foi restaurada em 2012 com recursos do Iphan e atrai os olhares de visitantes que se encantam com a paisagem ainda bucólica. Mas poucos conhecem a sua história.

Neste texto publicado no início de 2012, pouco antes da restauração, no jornal Notícias do Dia/Joinville, conto um pouco dessa história. Como ela é longa, vou dividir em duas partes. A primeira está abaixo. A segunda, será postada na próxima semana.

Fique à vontade para comentar, acrescentar informações, corrigir o que for preciso. E compartilhar com seus amigos.

Casa Fleith. Crédito: Maria Cristina Dias

Casa Fleith. Crédito: Maria Cristina Dias


Casa da família Fleith – Centenário, imóvel enxaimel construído por João Fleith nos remete à histórias da Estrada do Pico

Maria Cristina Dias, especial para o Notícias do Dia
No final do século 19, o agricultor João Fleith, filho de imigrantes, adquiriu uma ampla área de terra em Pirabeiraba para construir sua vida. O acesso para o local era apenas uma picada que saía da Estrada da Serra, rumo ao interior, cruzando um trecho do rio Cubatão. À sua volta só havia mata – os únicos vizinhos eram os “bugres”, como eram chamados os indígenas que habitavam a região. No local que depois foi chamado de Estrada Capivara e hoje é a Estrada do Pico, ergueu a princípio uma casa com troncos de palmito, chão batido e telhado de palha. Mas ela logo foi substituída por uma mais sólida, erguida com a técnica enxaimel – tão sólida que hoje, cerca de 100 anos depois ainda resiste ao tempo, enquanto aguarda a tão sonhada restauração, prevista pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional): a Casa dos Fleith.

João Fleith, em seu aniversário de 90 anos, em 1958. Crèdito: livro "A Família Fleith no Brasil"

João Fleith, em seu aniversário de 90 anos, em 1958. Crèdito: livro “A Família Fleith no Brasil”

João Fleith nasceu em agosto de 1868, próximo de onde hoje fica a unidade da companhia Águas de Joinville, na SC-301, casou-se com Maria Antônia Goudard Fleith e foi morar na propriedade de 800 mil metros quadrados, que ia até o “porto” do Cubatão, próximo de onde hoje tem um plantação de eucaliptos, onde viveu até o fim da vida. Lá criou os filhos Franz (o Chico), Alfredo, Paula, Maria , José Jacob, Lauro, Afonso, Cecília, Ana, Alvino, Eduardo, Rosa e Margarida, que faleceu ainda menina. Também plantou cana-de-açúcar para abastecer o alambique onde durante décadas fabricou cachaça artesanal. E produziu melado, cultivou a terra e criou gado, porcos, galinhas e até abelhas. Um dos muitos netos de João e Maria Antônia, Egon João Fleith, 72 anos, mora no terreno ao lado da antiga casa do avô e conta que a propriedade parecia uma vila: tinha uns 12 ranchos, todos cobertos com palha, onde ficava a criação, os engenhos, o paiol de milho e o depósito de lenha – tudo a cerca de 20 ou 30 metros da residência da família.”Perto da casa não tinha estrebaria nenhuma”, recorda.

Organizar a propriedade não foi tarefa fácil. A começar pelo acesso. Quando João Fleith chegou ao local, o único caminho para casa era um picada no meio do mata e era preciso atravessar o rio Cubatão com uma canoa ou a cavalo. Isto quando o nível do rio estava baixo. Quando o rio estava cheio, o jeito era esperar oito ou dez dias para poder atravessar e voltar para casa. “Não tinha pontilhão”, explica, comentando que a primeira ponte sobre o rio, que leva o nome de João Fleith, começou a ser feita muito tempo depois, pelos próprios colonos. “Ainda ajudei a fazer. Foi começado pelos colonos”. Irmão de Egon, José Wigando Fleith, de 75 anos, conta que o avô costumava ir a cavalo ao Mercado Municipal de Joinville para abastecer a casa com produtos como sal, querosene, velas e remédios. “Saía de manhã, a cavalo. Quando voltava já era noite”, revela.

Sala grande para reunir a família

joao fleith(sentado) e os filhos Cecilia, Alvino, Maria Catharina, Paula, Anna e Jose_a familia fleith no brasilA casa enxaimel foi construída para reunir a família. Na frente a tradicional varanda e dentro uma sala grande, onde eram realizadas as festas de aniversários e reuniões com os amigos. . “Os antigos faziam a sala maior para ter onde festejar”, explica Egon Fleith, lembrando dos muitos aniversários comemorados no local. “Festejamos até o último aniversário dele”. Primo de Egon e atual responsável pela casa, Osni Fleith, de 67 anos revela que, além da família, os amigos também enchiam a casa. “Não tinha salão e faziam domingueiras aqui”

Ao todo são quatro quartos com portas baixas (quase dá para para bater a cabeça) e largas, e uma cozinha com fogão a lenha e uma grande mesa de madeira com bancos para receber quem chega. O banheiro fica na parte de fora. Uma escada de madeira leva ao sótão, onde é possível ver o madeirame e o telhado original – hoje escorados para não desabar de vez devido à ação dos cupins e do tempo. Egon explica que a casa foi construída pelo próprio avô, com a ajuda de um pedreiro. “Foi construída com as próprias mãos. Ele contava que de manhã, quando dava para colocar o primeiro prego, já começava a pregar. E trabalhavam até que não dava mais para enxergar”. E Osni acrescenta: “Furavam com perume, manualmente”.

Erguida com madeiras resistentes como urucurana, peroba e canela, com os sarrafos originais feitos de laranjeira, a casa ainda exibe as marcações originais para a montagem da estrutura e as cavilhas nos encaixes.

E na varanda, onde o velho João Fleith gostava de se sentar, a paisagem revela uma Joinville rural, cercada de “roças” de aipim, plantações de banana e criação de animais. Embora não viva mais na casa, o neto Osni continua mantendo a propriedade e cultivando a roça. E lembrando dos bons tempos de casa cheia, com os irmãos, os muitos primos e amigos. “Lembro do tempo que nós jogávamos bola no pátio e tomávamos banho de rio no Cubatão. E dos parentes nos visitando. A casa era uma referência porque o falecido vovô morava aqui com o pai”, recorda. E destaca: Nunca saí desta casa. Estou todos os dias aqui”.

Comentários