Casa Fleith – Índios habitavam a região da Estrada do Pico

Fleyer 3Situada na Estrada do Pico, em Pirabeiraba, a Casa Fleith é uma construção centenária que ainda hoje atrai os olhares dos visitantes da região. Ela foi restaurada em 2012 com recursos do Iphan, mas poucos conhecem a sua história.

Neste texto publicado no início de 2012, pouco antes da restauração, no jornal Notícias do Dia/Joinville, conto um pouco dessa história. O texto foi dividido em duas partes. Para ler a primeira, clique aqui. A segunda parte pode ser conferida embaixo da foto.

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Casa Fleith. Crédito: Maria Cristina Dias

Casa Fleith. Crédito: Maria Cristina Dias

 

Casa Fleith – Índios habitavam a região da Estrada do Pico

Os netos de João Fleith lembram as histórias contados pelo avô, especialmente as de “bugres”, como os índios eram chamados pelos colonos. José Wigando Fleith conta que a avó Maria Antônia, com os filhos pequenos, passou momentos de apreensão no local. Quando o marido saía para ir ao mercado e passava o dia fora, os bugres aproximavam-se da casa de troncos de palmito e jogavam pedras e pedaços de paus no telhado. A avó se trancava dentro de casa com as crianças. Mas muitas vezes o filho mais velho, Franz, o “Chico”, ouvia os índios no mato chamando-o pelo nome.

Porém, assim que João Fleith se aproximava, os índios iam embora. “Quando escutavam meu avô, eles corriam. Tinham medo da espingarda”, explica, comentando que a medida em que mais colonos foram ocupando a região, os índios foram se retirando.

Wigando também conta que, no início do século 20, o avô costumava caçar veados e macucos na região do rio Cubatão. Os índios, entretanto, eram mais rápidos e muitas vezes levavam as presas antes do caçador: “Ele armava laços de noite para caçar veados. Mas quando ia de manhã ver a armadilha, os bugres já tinham levado a caça”, relata, acrescentando que o mesmo acontecia com os pássaros. “Ele atirava nos macucos, mas quando ia juntar, só via as folhas se mexendo… Os bugres juntavam antes”.

Wigando e o irmão recordam que da casa enxaimel era possível avistar o rio Cubatão, que tinha uma laje de pedra onde os índios costumavam pescar. Um dia, o avô chegou de surpresa e os bugres fugiram, abandonando os peixes. O velho Fleith, porém, deixou os peixes no lugar, para que os donos pegassem de volta.

Presença na comunidade

João Fleith participava da vida na comunidade. Quando os colonos da região se uniram para construir a Capela São José, próximo ao Mercado Clemente, na Estrada Dona Francisca, ele estava lá. Logo depois, o grupo fez a limpeza do terreno atrás da capela para instalar o cemitério. José Wigando Fleith conta que quando acabaram o serviço, o avô brincou com os amigos: “Agora já está pronto. Vamos ver quem vai primeiro”. Para sua tristeza, a família Fleith iria inaugurar o cemitério pouco tempo depois, quando a menina Margarida Fleith, com oito ou nove anos, uma das filhas de João e Maria Antônia, adoeceu e morreu repentinamente. Muitos anos depois, ele também seria sepultado lá.

João Fleith morreu em janeiro de 1962, aos 94 anos. Mesmo idoso, com 80 anos, ainda costumava andar mais de um quilômetro para ir para a roça. Sempre com a postura reta. Só quando já tinha mais de 90 é que começou a parar. Egon Fleith, irmão de Wigando, recorda que o avô de certa forma pressentiu a morte. Um dia levantou, tomou água e disse ao filho: “Alfredo, não vai porque eu posso morrer esta noite”. Mais tarde, os filhos Alvino e Eduardo estavam olhando de longe para ele, quando perceberam um gesto: “Eu acho que o papai está dando adeus”, disse Alvino. E estava mesmo. João deu um suspiro e morreu.

Esperança de ver a casa restaurada

Neto de João Fleith, Osni Fleith, de 67 anos, morou na casa erguida pelo avô até os anos 90. Ele chegou a reformar a casa. “Destelhei, sarrafiei, reformei toda”, relata, comentando que o pai, Alvino Fleith, herdou o imóvel e morou por anos no local.

Hoje, a casa é tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que abriu licitação para realizar a restauração do espaço. Agora, a família aguarda que a tão sonhada restauração finalmente saia do papel – o que parece estar próximo. Vivendo do que tiram da terra e de uma aposentadoria, a família não tem condições de arcar com os custos da reforma.

Embora esteja com o telhado comprometido, a Casa Fleith ainda preserva a beleza das construções antiga e atrai os olhares de visitantes. Em 2011 chegou a ser usada como locação para o filme que narra a saga dos suíços na antiga Colônia Dona Francisca.

Alvino Fleith faleceu pouco antes de completar 95 anos, em outubro do ano passado. Para seu filho, Osni, o sonho agora é ver o imóvel recuperado e voltar a residir nele, com a família. E – por que não? – atender os turistas que quiserem saber um pouco mais da história da Estrada do Pico, que se confunde com a história da família Fleith.

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