Família Lenschow é morta em ataque de índios há 140 anos

Essa história se passou há mais de 140 anos, mas ainda hoje os mais antigos moradores da região da Estrada dona Francisca ainda contam o caso. Há alguns anos, Marcelo Biatobock, descendente dos Lenschow decidiu pesquisar a história da família e tentar descobrir o que havia de verdade no que ouvia. Uma parte dessa pesquisa foi revelada nessa matéria escrita por mim e publicada originalmente em 1914, no jornal Notícias do Dia/Joinville. A  foto da Estrada Dona Francisca é ilustrativa.


Cenas de terror na Colônia Dona Francisca – Família Lenschow foi morta em ataque de índios há 140 anos, mas história ainda é lembrada pelos mais antigos

“Em 25 de novembro de 1873, próximo ao meio-dia, os bugres atacaram a casa do colono Johann Lenschow aos pés da Serra, que ficava a 4 léguas de distância do centro da Colônia, e assassinaram o sr. Lenschow, sua esposa e uma menina de sete anos de idade. Enquanto os três outros filhos, de doze, quatro e um ano e seis meses conseguiram escapar pela roça e se esconderam na mata e sobreviveram”. Publicado na edição de 29 de novembro de 1873, do Kolonie Zeitung, o jornal da Colônia Dona Francisca, o relato da tragédia na família Lenschow aterrorizou os cerca de 1.200 habitantes do lugarejo e ainda hoje, mais de 140 anos depois, ainda é lembrado e comentado pelos moradores mais antigos.

Crime ocorreu na Estrada Dona Francisca, na subida da Serra.

Ataque ocorreu na Estrada Dona Francisca, na subida da Serra.

O escriturário Marcelo Biatobock, de 36 anos, cresceu ouvindo os fragmentos desta história. Tetraneto de Johann Lenschow, ele conta que a avó, Lili Biatobock, costumava contar que os bisavós haviam sido mortos pelos “bugres”, como os índios eram chamados. Mas as informações foram se perdendo pelo tempo. Há cerca de dez anos, porém, ele começou a pesquisar sobre o assunto e chegou a detalhes sobre a tragédia e os fatos que a sucederam que nem a própria família conhecia. “Me interessei pelo assunto. Um dia, peguei o livro do Ficker e descobri a data em que eles foram mortos”, explica.

Com a data, ele foi ao jornal da época e, com a ajuda da tradutora Helena Richlin, do Arquivo Histórico de Joinville, resgatou o relato do dia do ataque. Segundo o Kolonie, Johann Lenschow estava com a esposa e filhos na roça de milho, que ficava do outro lado da estrada. Na casa, outros filhos faziam os serviços domésticos. Ao meio-dia Johann voltou para casa para almoçar e, como o almoço estava pronto, mandou seu filho de doze anos com os dois menores até a roça chamar a mãe, enquanto a filha de sete anos ficou em casa com o pai”, consta no relato.

O que se seguiu a partir daí foi uma cena de horror, descrita no jornal: “Ao chegarem ao encontro da mãe, ouviram terríveis gritos vindos da casa, e em seguida a menina de sete anos vinha correndo estrada afora, perseguida por quatro bugres. Ao se aproximar da roça, que era cercada por uma trama muito fechada, os bugres a alcançaram e feriram a menina com uma lança, que lá mesmo se quebrou, de forma que, mais tarde, o ferro foi extraído da ferida, matando-a em seguida com pauladas na cabeça, as quais lhe provocaram afundamento de crânio. A mãe, ao ver o sofrimento da filha, foi desesperada tentar ajudá-la, e os mesmos bugres que mataram a menina pularam a cerca e saltaram sobre a mulher indefesa e também a perfuraram com uma lança e com pauladas na cabeça, afundando-lhe o crânio. Os corpos ficaram jogados ali a aproximadamente uns 33 passos um do outro”.

O menino de 12 anos, ao ver a cena, pegou os dois irmãos, de quatro anos e um ano e meio, e correu para o meio da roça de milho, onde conseguiu se esconder. “Durante a fuga ele pediu para seus irmãos menores não fazerem qualquer barulho, e eles obedeceram”, consta no Kolonie. Com isso, conseguiram sobreviver.

A família Lenschow era arrendatária do lote 92 e do lote 224, o último antes da subida da Estrada da Serra, que, naquela época já estava aberta até alguns quilômetros adiante daquele trecho. Moravam praticamente isolados. A casa mais próxima, de um brasileiro conhecido por “Honorato” ficava a 60 braças de distância (cerca de 132 metros). Outros vizinhos só a 150 braças e após um trecho de mata fechada. Com isso, ninguém conseguiu socorrê-los a tempo de evitar a tragédia.

Depois do ataque aos Lenschow, os índios seguiram para a casa de Honorato. Mas os filhos e a esposa do vizinho escutaram um barulho na estrada, foram ver o que estava acontecendo e deram o alarme: “Os bugres estão vindo”. “Honorato pegou sua espingarda e colocou-se na armação (caixilho) da porta da casa, quando a vinte passos dele, o primeiro bugre estendeu o arco, preparando-se para atirar em Honorato, mas quando viu a espingarda, atirou-se ao chão e rolou para o lado da valeta. Honorato disparou um tiro, mas mesmo não tendo acertado ninguém, o tiro teve um efeito moral mágico. Em um golpe, todos os bugres bateram em retirada e muitos deles ainda podiam ser vistos na estrada, um pouco mais adiante, quando de repente desapareceram”. Com isso, a família de Honorato conseguiu sobreviver e fazer este relato à polícia local e ao jornal.

A cena na propriedade de Johann Lenschow lembrava um filme de terror. O dono da casa provavelmente foi o primeiro a morrer. Ferido a princípio no quarto, ele, mesmo sangrando muito, pulou a janela e correu pelo quintal, deixando atrás de si um largo rastro de sangue. Mas não conseguiu escapar, pois mais índios estavam do lado de fora. O colono foi atacado por flechas pela frente e por trás. Tentou, com o braço, se defender de uma flechada, mas foi atingido por outra, desta vez nas costas, e teve a coluna partida em dois. Por fim, foi atingido com um golpe de machado. “Lenschow agonizou até a morte, deitado de costas em uma vala da estrada a 15 passos de distância da janela a qual havia saltado”.

Os índios roubaram o que puderam. Louças, camas, cobertores, colchões, ferramentas e até uma espingarda. Eram muitos e as pegadas que deixaram indicavam que fugiram, a princípio, em diferentes direções. Depois subiram a Serra.

Os moradores das proximidades tentaram localizá-los no dia seguinte ao da tragédia. Seguiram os rastros e chegaram a encontrar restos dos móveis dos Lenschow. Mas perceberam que os índios ainda estavam por perto e decidiram retornar. Na época, estimavam que houvesse de 30 a 40 “bugres” rondando o local.

Direção pede ajuda à presidência da Província

Na época, o ataque repercutiu em toda a Província de Santa Catarina e a direção da Colônia solicitou reforços à segurança da região. Embora fosse o primeiro ataque na Colônia, já havia registros de um outro ocorrido a uma família brasileira, em 1836, na esquina das atuais ruas do Príncipe e Ministro Calógeras, conforme consta no livro de Carlos Ficker, “História de Joinville – Crônicas da Colônia Dona Francisca”. “O aborígene foi sempre o terror dos colonos”, diz o autor. E no final de dezembro daquele ano os reforços foram enviados para a colônia. “Chegaram 22 milicianos e batedores de mato, sem conseguir, porém, descobrir o paradeiro dos ‘gentios bravos’”, escreveu.

As notícias da tragédia também foram para as páginas de jornais de todo o país. Em suas pesquisas no Arquivo Histórico e no site da Biblioteca Nacional, em jornais e documentos antigos, Marcelo Biatobock constatou que o delegado de polícia de Joinville, Carl Julius Parucker pediu ajuda a secretaria da Província em São Francisco, que entrou em contato com a presidência, em Desterro, a atual Florianópolis. Tudo via telegrama. “Esses telegramas foram publicados em jornais da época como o jornal “A Regeneração” e “O Despertador”, pois a tragédia virou notícia no Brasil”, comenta, referindo-se a periódicos que circulavam em Desterro.

Em um desses telegramas, publicado no jornal “A Regeneração”, ainda em 1873, Carl Parucker, levanta hipóteses sobre as causas do ataque, que não eram habituais na região. “Todos os bugres até os campos de cima, estão em movimento. Provocação não houve, pois desde a fundação da Colônia Dona Francisca aqui não apareciam bugres. Talvez os irritou a fundação da nova colônia além da serra, receando eles serem despojados dos terrenos até agora ocupados”, escreveu no jornal, que foi localizado por Marcelo em suas pesquisas.

A afirmação de Parucker vai ao encontro do que supõe Lili Biatobock, avó de Marcelo e bisneta de Johann Leschow. Aos 86 anos, o pouco que ela conhece da história foi contado por seus pais, que ouviram dos pais deles. “Desde antigamente era falado que eles moravam aqui pertinho, a um quilômetro acima, e que plantavam do outro lado da estrada. Dizem que eles avançaram os caminhos dos índios. E os índios não gostaram”, conta ela, que mora na Estrada Dona Francisca, atual SC-301, bem próximo da terra que pertenceu a seus antepassados. Com as pesquisas de Marcelo, ela pode saber um pouco mais das histórias da família e que se perderam com o tempo.

Primo de Llil e outro descendente de Johann Lenschow, Affonso Lütke, está prestes a completar 94 anos, mora na mesma estrada e ouviu os mesmos relatos desde menino. Nascido em 1920, ele conta que nunca se deparou com nenhum índio na região, mas, quando jovem, viu vestígios da passagem deles pelas redondezas. “Já vi restos de fogueira e uma vez achei uma machadinha”, revela.

Irmãos foram separados e terra foi retomada pelo Domínio Dona Francisca

Johann Christian Ludwig Lenschow nasceu em 1826, em Dassow, em Mecklenburg, no nordeste da Alemanha, e chegou à Colônia Dona Francisca em 1859, com a esposa Elise Neuschäfer e três filhos: Amalie Sophie Henriette Lenschow, Johann Heinrich Friedrich Lenschow e Marie Lenschow – os dois mais velhos eram do primeiro casamento e Marie viria a falecer pouco depois. Na colônia, tiveram mais cinco filhos: Carl Lenschow, em 1861; Heinrich Friedrich Carl Lenschow, em 1863; Elize Maria Magdalena Lenschow, em 1867; Emma Anna Dorothea Lenschow, em1869; e Auguste Sophie Ida Lenschow, em 1872.

Marcelo conta que na hora do ataque, os dois filhos mais velhos estavam fora de casa. Amalie trabalhava na sede da colônia, na casa de uma família, e Johann não se sabe exatamente onde estava. O filho Heinrich, de 11 anos também não aparece nos relatos. Elize, com sete anos, foi morta pelos índios. E Carl, com 12 anos, conseguiu salvar os dois irmãos menores.

Com a morte dos pais, os irmãos menores de idade foram separados e entregues a três famílias locais. “Eles perderam os pais, uma irmã e foram separados. Imagine o trauma dessas crianças?”, avalia Marcelo.

Mas isso não foi tudo. Com a morte dos pais, os herdeiros perderam os direitos também às terras onde moravam, que era arrendada do Domínio Dona Francisca, por meio de seu representante, Frederic Brustlein. Marcelo Biatobock explica que no contrato de arrendamento havia uma cláusula que determinava que em caso de não-pagamento a área seria devolvida, inclusive com as benfeitorias. “E foi o que aconteceu”, revela, mostrando documentos que mostram a retomada do lote.

Para os órfãos, segundo o inventário do casal restaram poucos bens: “Uma vaca no valor de cinquenta e seis mil reis, que vista pelo Juiz achou que devia valer, um cavalo, três porcos, uma roda de mandioca, um forno de ferro, um carro com quatro rodas, duas caixas e uma panela de ferro”, de acordo consta no documento, que não falava em lotes, embora Lenschow tenha sido proprietário de outras terras antes de arrendar o terreno em que morreu do Domínio Dona Francisca.

Também foram apresentadas as dívidas com comerciantes locais, as despesas com o sepultamento e outras com as crianças. “Para quitar essas dívidas, decidiu-se fazer um leilão dos bens da família em praça pública”, revela Marcelo. Mais tarde, em 1878, os jovens receberam uma parte da herança do avô, que morava na Alemanha.

O destino dos órfãos

  • Amalie Sophie Henriette Lenschow, na época com 21 anos, trabalhava de doméstica no Centro da Colônia, e morava com os patrões. Casou-se com Carl Christian Andreas Schulz e faleceu em 1911.
  • Johann Lenschow (filho), na época com 20 anos. Casou-se com Caroline Sophie Johanne Schwitzky e faleceu em 1931. O casal teve seis filhos, e a maioria dos Lenschow que moram em Pirabeiraba descende deles.
  • Carlos Lenschow, na época com 12 anos, foi quem salvou os irmãos. Ficou sob os cuidados de Friedrich Haase. Estima-se que tenha casado com Elisabeth Müller Lenschow,
  • Henrique Lenschow, na época com 9 anos, ficou a princípio aos cuidados de Friedrich Haase. A partir de 1875 ficou aos cuidados de Gustav Krüger.
  • Emma Lenschow, na época com 4 anos, ficou a princípio aos cuidados de Friedrich Haase. A partir de 1874 ficou sob os cuidados de Johann Rieckhoff. Casou-se com Johann Carl Friedrich Eggers e se mudou para Jaraguá.
  • Auguste Lenschow, na época com 1 ano e meio, ficou a princípio aos cuidados de Friedrich Haase.
    Fontes: “Família Lenschow em Joinville”, pesquisa de Marcelo Biatobock.

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