Fazendas de lusos foram referência para demarcação de terras

Fleyer 3Radicadas no Norte catarinense desde o século 17, famílias de origem lusa, mas já brasileiras, ajudaram os imigrantes que chegavam à Colônia Dona Francisca, mas são poucos lembrados quando se fala da ocupação da região. Esse texto faz parte da matéria “Muito antes da Colônia Dona Francisca”, publicada originalmente no jornal Notícias do Dia/Joinville, em 2015.

Esta é a segunda parte da matéria, que é muito extensa e está sendo postada em partes. A primeira parte pode ser conferida clicando aqui. No próximo post, trarei a lista de famílias que estavam na região. E depois a influência dos luso-brasileiros na política e na economia da região no final do século 19 e início do século 20. Para receber diretamente as postagens, cadastre-se no site, no final da página.

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Primeira vista de Joinville antes da fundação oficial da Colônia Dona Francisca. Desenho de-1850. Reprodução: "História de Joinville - Crônicas da Colônia Dona Francisca

Primeira vista de Joinville antes da fundação oficial da Colônia Dona Francisca. Desenho de-1850. Reprodução: “História de Joinville – Crônicas da Colônia Dona Francisca


Fazendas já estavam consolidadas na época da demarcação das terras dotais

O que esse povoamento no Sul tem a ver com a presença lusa nos arredores das terras da Colônia Dona Francisca, é simples. “A última grande ‘sesmaria’ de São Francisco do Sul foi a dotação imperial concedida à princesa Dona Francisca, futura sede da cidade de Joinville, iniciada em 1850”, escreveu o sociólogo Ricardo Costa de Oliveira no artigo “Homens Bons da Vila de Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco do Sul – uma elite senhorial do Brasil Meridional nos séculos 18 e 19”, publicado pelo Arquivo Histórico de Joinville. Na hora de demarcar a área da princesa, em 1846, as fazendas existentes já serviram como referência e foram citadas nos autos de medição. Em alguns casos, como o do coronel Francisco de Oliveira Camacho, houve sobreposição de terras – em outros, ocorreu o desvio para evitar a propriedade dos moradores. “O traçado desvia de propriedades. Algumas foram cortadas ao meio, mas elas foram indenizadas”, informa a historiadora Sandra Guedes.

Ao tratar da demarcação das terras dotais, o livro “História de Joinville – Crônicas da Colônia Dona Francisca”, de Carlos Ficker, indica as sesmarias já existentes na área onde tempos depois se formaria Joinville. Ele cita o coronel Antonio João de Vieira como proprietário de lavoura entre o rio Bucarein e o atual rio Itaum. Ao Norte, ficavam as terras de João Cercal, Luiz Dias do Rosário, Vicente Dias do Rosário e seu irmão Francisco, Ana Afonso Moreira e José Cordeiro, e de Januário de Oliveira Cercal, com uma grande área entre os rios Cubatão e São Francisco. No Boa Vista, estava radicado Agostinho Budal. E no Bucarein e Itaum residia a família do coronel Antonio Vieira, e depois às de Salvador Gomes e Afonso Miranda. Ao Sul, ainda havia terras de Antonio da Veiga e João da Veiga, e também de Manoel Gomes e Francisco da Maia. Estes são alguns nomes citados por Ficker e cujos descendentes ainda hoje estão radicados na cidade.

Um forte apoio aos imigrantes recém-chegados

Quando, em 1846, foi demarcado o dote da princesa Dona Francisca, esta população já estava radicada no litoral e pelo interior de São Francisco do Sul há cerca de 200 anos. E seus conhecimentos e apoio foram importantes para a instalação dos primeiros imigrantes trazidos pela Sociedade Colonizadora Dona Francisca. “As pessoas já estavam aqui e foram as primeiras a ajudar os imigrantes. Havia a dificuldade da língua, a comunicação era um problema sério, mas os imigrantes precisavam da ajuda dos brasileiros que estavam aqui e que conheciam os caminhos”, afirma Sandra Guedes, destacando que eles também seriam importantes para a produção de alimentos nessa fase inicial. Na época, as únicas opções de fornecimento estavam em São Francisco do Sul ou através de tropeiros que já percorriam locais afastados dos centros urbanos.

Esta ajuda também é ressaltada por Ficker, em seu livro. Ele narra que as expedições ao local da futura Colônia Dona Francisca era realizada em canoas, sob a responsabilidade do tenente coronel Francisco de Oliveira Camacho, comandante dos Milicianos e proprietário de terras na região. Revela também que o porto do Bucarein, na junção dos rios Bucarein e Cachoeira, já era usado pelo coronel Antonio João Vieira, que tinha escravos e plantações onde hoje é o Itaum. E o apoio do coronel Vieira foi fundamental no início dos preparativos para a chegada dos primeiros imigrantes, ainda em 1850. “Como conhecedor da região, o coronel Vieira ofereceu os seus serviços e escravos quando, em 22 de maio de 1850, chegaram Leónce Aubé, engenheiro Guenther e demais membros da expedição pioneira”, informou.

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