Fiação São Bento – Ao lado da comunidade

Não são raras as vezes em que a história de uma empresa está vinculada à história da comunidade em que está inserida. Em Joinville, por exemplo, a Fundição Tupy está profundamente ligada ao bairro Boa Vista, que se desenvolveu a partir da instalação da indústria e hoje é um dos bairros mais populosos da cidade. Em São Bento do Sul, um bom exemplo é a Fiação São Bento e o bairro Serra Alta. Fundada em maio de 1948 por Otto Eduardo Lepper (na época presidente da Fabril Lepper, de Joinville) com colaboração de empresários da região, a empresa tinha a proposta de atender a indústria têxtil brasileira com a produção de fios de algodão, e contribuiu com o desenvolvimento da região, especialmente a partir da década de 1970.

Vista aérea da Fiação São Bento, no bairro Serra Alta, em São Bento do Sul. Acervo da empresa

Vista aérea da Fiação São Bento, no bairro Serra Alta, em São Bento do Sul. Acervo da empresa

Bisneto de Etiénne Douat, o engenheiro francês que esteve à frente da construção da Estrada Dona Francisca por mais de duas décadas (nos anos mais difíceis desta obra, que foi determinante para o desenvolvimento econômico da região), o empresário Henrique Loyola tinha um forte vínculo com o Planalto Norte e quando assumiu a presidência da Fiação São Bento, em 1972, trouxe para ela a visão de que a empresa precisa contribuir para o desenvolvimento do local e da comunidade em que está inserida.

Ao assumir, o primeiro desafio foi sanear a empresa, que era pequena e estava com sérias dificuldades financeiras, à beira da insolvência – e modernizá-la, já que o parque fabril com mais de 20 anos de uso e sem renovação já estava obsoleto. Foram importadas máquinas novas e as antigas foram destruídas a marretadas para que não voltassem a funcionar. Com o novo maquinário a Fiação se colocou entre as mais modernas empresas do setor no mundo e alavancou a produção, que, na época, passou de 80 toneladas/mês para 350t/mês. Posteriormente, este volume passou a 1.600 t/mês – um volume vinte vezes maior do que quando recebeu a missão.
Outra providência foi analisar o sistema contábil, racionalizando, atualizando, adotando metodologias modernas da época, como o sistema eletromecânico, pois anteriormente a contabilidade era manuscrita – o mesmo trabalho que já havia executado na Lepper, em Joinville, com resultados positivos.

Para expandir a fábrica, a Fiação comprou um grande terreno no bairro Serra Alta, onde havia uma igreja. Porém, uma mudança no arruamento do bairro permitiu a ampliação sem a necessidade de usar a área extra. Loyola então doou o terreno para a Igreja Católica, fazendo a escritura e regularizando a situação.

Mais tarde, as ações voltadas para a comunidade foram colocadas em prática principalmente por meio da Fundação 12 de Outubro, uma instituição focada na assistência a crianças e idosos – e os investimentos voltados para a Educação e formação profissional dos moradores da região tiveram especial atenção. Uma das iniciativas mais relevantes foi a doação do terreno que havia sido adquirido para expansão, que possibilitou a construção do Caic do Serra Alta, uma área de 17.748m². Isto permitiu que as crianças da localidade usufruíssem da escola em período integral, dentro do modelo estabelecido pelo governo federal no início dos anos 1990 para levar educação e cultura a crianças carentes.

Na época, a Engepasa, do empresário Álvaro Gayoso Neves, ganhou a concessão do governo federal para a construção dos Caics no Sul do País. Uma das unidades viria para Santa Catarina, mas a cidade ainda não estava definida. Para concretizar o projeto, porém, era preciso que houvesse um terreno disponível, o que geralmente era responsabilidade das prefeituras locais. A princípio, a região Norte não estava no páreo para receber a escola e havia um movimento forte para levá-la para o Alto Vale, mas Gayoso ligou para o amigo Loyola e perguntou se ele não doaria um terreno para a construção do Caic em São Bento do Sul. A Fiação São Bento era proprietária de um terreno de 37 mil metros quadrados no bairro Serra Alta) e Loyola sabia da importância de ter uma escola com aquele conceito na região. Ele não teve dúvidas: doou 17 mil m² e, com isso, viabilizou a implantação do Caic no Planalto Norte. “Ele me ligou e perguntou: ‘Você não doa um terreno em São Bento do Sul?’ Eu respondi: ‘Tá dado!’ Eram 17 mil metros quadrados. Agora está lá o Caic, pronto, funcionando, atendendo a criança, que estuda de graça”, relembra Loyola.

E os 20 mil m² restantes do terreno? Eles foram destinados à outra obra para reduzir a carência educacional na região: a construção de uma escola de formação profissional, de nível técnico, em parceria com o Senai. Por meio da Fundação 12 de Outubro, criada e na época presidida por Loyola, foi doado o terreno e erguido e equipado o prédio, que foi entregue ao Senai. Assim, o terreno, a obra e a infraestrutura de ensino foram viabilizados pela Fundação, e o Senai ficou responsável pela educação, trazendo o seu know how de ensino técnico. “O aluno que deixa o Caic pode completar sua formação profissional no Senai, no mesmo bairro”, explica o empresário. Esta unidade tem capacidade para atender até 7 mil estudantes e os cursos oferecidos levam em conta o perfil industrial das cidades da região, ou seja, prepara o jovem para o mercado local.

Projeto do Senai, no bairro Serra Alta, em São Bento do Sul

Projeto do Senai, no bairro Serra Alta, em São Bento do Sul

Vista aérea do projeto do Senai, no bairro Serra Alta, em São Bento do Sul

Projeto do Senai, no bairro Serra Alta, em São Bento do Sul

A formação profissional de nível superior dos moradores do Planalto Norte também foi atendida, com a chegada da Sociesc a São Bento do Sul. Nascida da tradicional Escola Técnica Tupy, em Joinville, a instituição de ensino chegou ao Planalto no final dos anos 1990, quando Loyola era presidente da instituição e conduzia a renovação e modernização da escola. Antes, era comum os moradores da região descerem a serra para ir a Joinville estudar na ETT.

No livro “Henrique Loyola – Colecionador de Desafios” é revelado como ocorreu a chegada da escola e instalação da área física, um projeto que, mais uma vez, se tornou realidade devido à capacidade que Loyola tinha de mobilizar o empresariado, seus pares, em torno de uma causa: “Convicto de que o município tinha condições de abrigar uma unidade da Sociesc, Loyola reuniu uma caravana de empresários das principais companhias da região, como Oxford, Rudnick, Artefama, Weihermann, Tuper, Móveis James, Serraltense, Condor e Buddemeyer, para conhecer as instalações e os serviços da Sociesc em Joinville. O grupo voltou entusiasmado com a ideia e Loyola abriu a lista de subscrições, que garantiu a arrecadação de R$ 300 mil para a instalação da Sociesc na cidade”.

O reconhecimento das ações em São Bento do Sul veio em 2011, quando uma praça inaugurada no bairro Serra Alta ganhou o nome de Henrique Loyola. E naquela ocasião, a Fiação São Bento se comprometeu a contribuir com a reforma da Estação Ferroviária Serra Alta, no mesmo bairro.

Fortalecimento do associativismo

O associativismo é um instrumento de união que fortalece uma comunidade. Problemas comuns são enfrentados e resolvidos em grupo, o que é positivo para todos. Em 1991, a Fiação São Bento e seus gestores tiveram papel decisivo na Associação Comercial e Industrial de São Bento do Sul (Acisbs). Na época, a instituição ficou quatro meses sem presidente e Loyola, que era presidente da Associação Empresarial de Joinville (Acij), em Joinville, mobilizou o empresariado de São Bento do Sul para que fortalecessem a Acisbs. O empresário Frank Bollmann, da Tuper, foi procurado e aceitou que seu nome fosse proposto para a presidência, tendo como vice Horst Maul, diretor da Fiação São Bento. Eleitos por aclamação, eles deram uma nova vida à instituição.

A mobilização dos empresários da região também contribuiu para que São Bento do Sul ganhasse um hotel de padrão executivo que pudesse receber quem chegava à cidade com o objetivo de fazer negócios. E não eram poucos. Polo moveleiro da região – e do País – e exportador de móveis, São Bento do Sul recebia comitivas de estrangeiros para fazer negócios, mas por falta de acomodação adequada eles precisavam se hospedar em Curitiba ou Joinville.

Para solucionar a situação e estimular os negócios, o empresário Alfredo Klimek, da Condor, levantou a necessidade de São Bento do Sul ter um hotel. A ideia era que cada empresário contribuísse para viabilizar o empreendimento que beneficiaria a todos – e à cidade. Ele convocou os empresários da região para uma reunião na Condor para discutir o assunto. Loyola, então, tomou a iniciativa de fazer uma lista de adesões e valores – e foi o primeiro a assiná-la, estabelecendo o montante com que iria contribuir e dando uma diretriz para os demais presentes. Klimek foi o segundo, com contribuição no mesmo valor. Assim, foram levantados recursos para a construção do hotel e criada a “Empreendimentos de Turismo de São Bento do Sul S/A, com 42 sócios-fundadores, entre eles proprietários de empresas como Artefama, Buddemeyer, Tuper, Móveis Rudnick, entre muitas outras, conforme consta no livro “Henrique Loyola – Colecionador de Desafios”. Com o nome de “Novotel”, o empreendimento foi inaugurado no final de 1995 e em 2015 passou a ser denominado Hotel Serra Alta, em lembrança ao nome dado ao primeiro núcleo habitado de São Bento do Sul.

Em artigo publicado no jornal “Evolução”, em junho de 2015, o advogado Jonny Zulauf explica que o bairro Serra Alta também recebeu a denominação em referência a este fato histórico. E destaca a importância do resgate do nome como forma de preservar a história local: “A primeira linha de ônibus pela referida estrada da serra denominava-se de Serrana. Uma tradicional empresa de móveis da cidade remete ao nome momentâneo de Serra Alta, chamada de Serraltense. A declinada estação de trem, é referência e identifica o bairro mais populoso da cidade. E, em júbilo, devemos comemorar dois fatos importantes que coincidem: O primeiro, das notícias da restauração da Estação Serra Alta, um verdadeiro marco histórico de nossa cidade, em que festivamente viu chegar o primeiro trem em 13 de abril de 1913. O segundo, da atual e nova denominação ao grande hotel na mais alta colina no centro da cidade que, desvinculando-se da rede NOVOTEL, passa a denominar-se SERRA ALTA HOTEL. Dois fatos marcantes que mostram a sensibilidade de quem sabe resgatar e preservar valores de nossa história.

Comentários