Lusos no Norte catarinense – muito antes da Colônia Dona Francisca

Fleyer 3Nós falamos muito da Colônia Dona Francisca e muitos acham que ela foi o início do povoamento na região de Joinville e do norte catarinense. Ledo engano. Muito antes do estabelecimento da Colônia Dona Francisca, famílias de origem lusa, mas já brasileiras, estavam radicadas nas cercanias de São Francisco do Sul.

Esta matéria foi publicada originalmente no jornal Notícias do Dia/Joinville, em 2015, mas não constava até agora na Internet. Abaixo, segue o texto. como ela é muito extensa, vou dividi-la em três postagens – a primeira é essa e as demais serão divulgadas nas próximas semanas.

Fique à vontade para comentar e ampliar as informações. Mas, por favor, se usar o texto, lembre-se de colocar os créditos.


Muito antes da Colônia Dona Francisca – Famílias de origem lusa já estavam estabelecidas nas cercanias de São Francisco do Sul desde o século 17.

Maria Cristina Dias, especial para o Notícias do Dia

Família do coronel Francisco Gomes de Oliveira no almoço de formatura do filho Carlos Gomes de Oliveira-1920. AHJ /reprodução da revista "Ontem e Hoje"

Família do coronel Francisco Gomes de Oliveira no almoço de formatura do filho Carlos Gomes de Oliveira-1920. AHJ /reprodução da revista “Ontem e Hoje”

Na segunda metade do século 19, quando começou o empreendimento da Sociedade Colonizadora de Joinville, a região da Colônia Dona Francisca nada tinha de desabitada. Pelo contrário. Além das populações indígenas naturais da localidade, como os guaranis ou xoclengues que transitavam entre o litoral e as escarpas da serra do mar, famílias de origem lusa – boa parte já brasileiras – estavam estabelecidas em sesmarias e fazendas por toda a região. E não eram uma ou duas. Eram inúmeras, reunidas em vários núcleos compostos por parentes, agregados e escravos, que plantavam mandioca para a produção de farinha, mantinham suas roças, pescavam e caçavam. Embora hoje pouco se fale do seu papel no início do povoamento desta área, estas famílias viviam nas cercanias da Vila de São Francisco do Sul, muitas nos locais onde hoje está situada Joinville. Elas deram apoio fundamental no início do processo colonial e atuaram de forma determinante na vida política e administrativa da cidade no século 19 e ao longo do século 20.

A presença de lusos e brasileiros por aqui é bem antiga e para falar dela temos que antes lembrar que a área que tempos depois seria parte do dote da princesa Dona Francisca fazia parte de São Francisco do Sul. O sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, pesquisador sobre o tema e descendente de uma destas famílias, os Gomes de Oliveira, explica que a colonização da região começou com o governo português e a população estabelecida na Capitania de São Vicente, em São Paulo. “São estas famílias, basicamente, que começaram as incursões para o Sul do Brasil, no século 17. São os primeiros povoadores”, afirma, lembrando que antes havia a população de ameríndios no litoral Sul, ou seja, os índios carijós, guaranis e de outras tribos.

Essas famílias que desceram para o Sul compunham uma população brasileira, formada por portugueses e pessoas já nascidas aqui, muitas frutos da miscigenação com índios e negros.

São elas que formam as primeiras vilas do litoral. Assim, Paranaguá, por exemplo, se torna vila em 1648. Já São Francisco do Sul começa a ser povoada pouco antes disso e na década de 1660 também já era vila. O mesmo ocorreu com Laguna em 1670. Ricardo observa que estas pessoas iam se organizando, erguendo suas casas e trazendo suas instituições, como igrejas e câmaras, que culminariam na formação das vilas, que eram a unidade administrativa local. No artigo “Homens Bons da Vila de Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco do Sul – uma elite senhorial do Brasil Meridional nos séculos 18 e 19”, publicado na revista do Arquivo Histórico de Joinville, ele situa esse movimento como parte da estratégia de ocupação do litoral Sul. “Fazia parte da conquista e colonização do Brasil Meridional”.

Esta colonização tinha como base a distribuição de terras por meio de sesmarias, grandes áreas de terras concedidas pelas autoridades portuguesas em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Em São Francisco do Sul, as primeiras sesmarias foram entregues a Antonio Fernandes, Manoel Lourenço de Andrade, a seu genro Luís Rodrigues Cavalinho, ao capitão Antonio Francisco Francisques e a vários outros, segundo o mesmo artigo. A historiadora Sandra Guedes explica que até 1850, quando foi estabelecida a Lei de Terras, as terras eram uma concessão do rei e as pessoas justificavam que tinham como mantê-las. “Elas eram agraciadas com as terras”, afirma. As áreas mais cobiçadas eram as cultiváveis e que estivessem próximas às vias usadas para o transporte, como o mar e os rios. “O litoral era fundamental, pois as mercadorias vinham pelo mar. São Francisco do Sul, próximo de São Vicente, tinha trânsito de pessoas pelo mar, de canoa, para o comércio e para as festas religiosas”, conta.

Mas quem eram essas famílias? “São as mesmas famílias do chamado bandeirantismo meridional”, informa o sociólogo Ricardo Costa de Oliveira. Elas tinham estrutura bem definida, militarizada, patriarcal. Além do proprietário, que geralmente tinha um título militar como alferes, capitão ou capitão-mor (o mais importante nesta hierarquia), estava a mulher e os filhos, os escravos e os agregados, que podiam ser parentes, filhos fora do casamento ou índios “administrados”, que embora legalmente livres, trabalhavam em regime muitas vezes similar ao da escravidão. Eles produziam principalmente a mandioca, usada para fazer farinha, mas também cana-de-açúcar e outros alimentos, além de pescar e caçar na região.

A justiça, em primeira instância, era realizada pela Câmara local, que era composta pelos chamados “homens bons”, pessoas com forte influência social e política na região e que poderiam exercer a gestão local. Eles eram poucos e selecionados – geralmente proprietários de grandes fazendas em torno da Baía da Babitonga e de São Francisco do Sul. No final do século 18, já figuravam na relação de “homens bons” nomes como o de Manoel de Oliveira Cercal, da família Oliveira Cercal que tinha extensas áreas na região do rio Cubatão, que na época pertencia a São Francisco do Sul e hoje integra o município de Joinville. Outro nome que estava na relação pesquisada por Ricardo Costa de Oliveira era o de um antepassado seu: Manoel Gomes Galhardo, patriarca da família Gomes de Oliveira, que já no século 18 possuía sesmarias na região. Manoel teve ampla atuação na vida pública como juiz e procurador de impostos e foi o responsável pela construção da câmara/conselho/cadeia da vila de São Francisco do Sul.

Sandra Guedes lembra que os sítios ou fazendas estavam espalhadas pela região, mas era comum que seus proprietários mantivessem casas na Vila de São Francisco, na sede, onde moravam durante períodos e podiam exercer as atividades públicas.

Na próxima semana: Fazendas já estavam consolidadas na época da demarcação das terras dotais

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