Metalúrgica Bennack – parte 3 – Histórias de quem trabalhou no local

Fundição Otto Bennack, cerca de 1925. AHJ

Fundição Otto Bennack, cerca de 1925. AHJ

Uma grande empresa é feita com pessoas – e estas pessoas têm histórias. após a publicação das duas primeiras reportagens sobre a Metalúrgica Bennack, algumas dessas pessoas, ou seus descendentes, me procuraram para contar como as histórias de suas vidas se confundia com a da antiga metalúrgica. Aqui estão alguns relatos.

Para ler a primeira reportagem sobre a Metalúrgica Bennack, é só clicar aqui. A segunda reportagem está aqui.


Histórias contadas através dos tempos –  Ao longo de mais de sete décadas, Metalúrgica Bennack fez parte da vida de vida de milhares de pessoas e seus familiares.

Maria Cristina Dias, especial para o Notícias do Dia

Uma foto, um nome, uma história. Às vezes basta um pequeno incentivo para que a gente ache a ponta da meada e desenrole o novelo de lembranças de uma época. Foi o que aconteceu com um grande número de leitores do Notícias do Dia nas últimas semanas. Apesar de ter sido uma das mais importantes empresas de Joinville ao longo de sete décadas do século passado, poucos são os registros sobre a Metalúrgica Bennack na cidade. Mas depois que as duas primeiras reportagens sobre a empresa foram publicadas, no final de novembro e início de dezembro de 2013, a redação assistiu a uma enxurrada de recordações. Vários leitores ligaram, escreveram ou deixaram mensagens nas redes sociais contando que o pai ou avô trabalharam na empresa. Alguns enviaram novas imagens, outros ajudaram a identificar algumas das personagens que posaram para a foto publicada na edição de 7 de dezembro. Com isso, possibilitaram que nós voltássemos a enfocar a Metalúrgica Bennack e as histórias de quem faz parte dela nesta terceira reportagem sobre o assunto – que, a princípio, não estava prevista.

Otto Bennack, a esposa Catarina e as filhas Gertrudes (a maior) e Helena. Acervo Vera Keinert

Otto Bennack, a esposa Catarina e as filhas Gertrudes (a maior) e Helena. Acervo Vera Keinert

Quando Vera Keinert Ehlke leu as matérias sobre a Metalúrgica Bennack lembrou das histórias que a avó contava. Neta de Helena Bennack Jansen e bisneta de Otto Bennack, ela muitas vezes percebeu o olhar de incredulidade dos estranhos quando alguém da família comentava que o bisavô era filho ilegítimo de Frederic Brüstlein. Procurador do príncipe de Joinville, diretor da Colônia Dona Francisca, empresário e político (foi superintendente de Joinville, presidente da Câmara Municipal e deputado estadual), Brüstlein era uma das personalidades mais influentes da Colônia Dona Francisca no final do século 19. Solteiro e, oficialmente, sem filhos, ele nunca assumiu a paternidade do menino, embora em seu testamento tenha reconhecido que residia há décadas com Guilhermina Bennack, mãe de Otto, e deixado para ambos terrenos como herança.

Otto Bennack teve duas filhas: Helena Erna e Gertrudes. Gertrudes, a mais velha, nasceu no final do século 19, casou-se com Alfredo Tiede e depois de um tempo foi morar em Curitiba. Helena Erna casou-se com Carlos Jansen, um blumenauense que logo começou a trabalhar com o sogro na empresa e depois assumiu os negócios da família. Helena nasceu em 1900 e, assim como a irmã mais velha, frequentava o Palácio dos Príncipes para visitar a avó, Guilhermina Bennack. “Minha avó contava que, menina, ia visitar a avó dela no museu, onde morava. Contava que a avó fazia uma sopa de leite que ela não gostava e fugia para não tomar”, revela Vera, comentando que Helena conheceu Brüstlein. “Só falava que ele era muito sério”, recorda. Frederic Brüstlein morreu em 1911 e Guilhermina em 1925.

Carlos Jansen (de terno escuro) e um amigo. Acervo Vera Keinert

Carlos Jansen (de terno escuro) e um amigo. Acervo Vera Keinert

Helena e Carlos Jansen tiveram dois filhos: Nelson e Astrid, que casou e foi morar em Curitiba. Após a morte de Carlos, em 1954, Helena foi morar com a filha na capital paranaense e ajudou a criar os netos. Assim, Vera cresceu ouvindo as histórias da família. “Ela contava que a avó era governanta do Brüstlein, que engravidou e que ele nunca assumiu. Quando o filho ficou maior, Brüstlein tentou se aproximar, mas o filho não quis”, revela, lembrando que Helena falava ainda do vapor Babitonga. Vera ainda hoje guarda um jogo de jantar que a avó usava em banquetes e que teria sido trazido na embarcação que fazia a ligação entre Joinville e São Francisco do Sul.

Helena Erna contava também para a neta que, após a encampação da metalúrgica, em 1942, durante a 2ª Guerra Mundial, Carlos Jansen abriu um “Secos & Molhados” em Joinville. Ele também investiu em uma ampla área de terra em Ubatuba, em São Francisco do Sul, junto com o empresário Palmiro Vidal. Depois, eles dividiram a área e venderam os lotes. Helena faleceu em 1987, aos 86 anos.

 

Mais de 30 anos de trabalho na metalúrgica

Norberto da Silva, quando começou a trabalhar na Metalúrgica, em 1939. Acervo de família.

Norberto da Silva, quando começou a trabalhar na Metalúrgica, em 1939. Acervo de família.

A carteira de trabalho do torneiro-mecânico Norberto da Silva não deixa ninguém se enganar com as datas. De 1939 a 1974, ele trabalhou na antiga Metalúrgica Bennack. Encarou o trabalho na produção, cresceu dentro da empresa e acompanhou as sucessivas mudanças de nome e de gestão que ocorreram a partir da Segunda Guerra Mundial. Hoje (2013), prestes a completar 99 anos de vida e com uma lucidez invejável, ele ainda lembra em detalhes de seu cotidiano e das formas de produção em meados do século 20.

Norberto conta que entrou na empresa aos 24 anos para trabalhava na montagem-geral, uma das áreas mais pesadas da indústria. “A sucata vinha avulsa e ia para a fundição para derreter de acordo com o bloco de máquinas que nós íamos fabricar”, explica. Os horários eram rigorosos e o expediente começava às 7h e ia até às 17h – só parava para o almoço. Para chegar ao trabalho, a bicicleta era a companheira de todos os dias. “Quarenta anos de bicicleta. Era hábito do povo naquele tempo”, conta, lembrando que a carteira foi assinada bem no início das atividades. “Esse rigor, eles tinham”.

Quando começou na empresa, Carlos Jansen já estava lá, responsável pela parte administrativa. “Era moço, tinha os filhos pequenos. Mas já tinha voz ativa”, comenta. Otto Bennack, já idoso, ainda cuidava da parte industrial. “Consertava as máquinas e trabalhava nas máquinas mais novas. Era um profissional geral da mecânica. Trabalhava o dia inteiro, acompanhando os operários”.

Carteira de trabalho de Norberto da Silva, de 1939. Acervo de família

Carteira de trabalho de Norberto da Silva, de 1939. Acervo de família

Carteira de trabalho de Norberto da Silva, mostrando a mudança no nome da Metalúrgica Bennack Acervo de família

Carteira de trabalho de Norberto da Silva, mostrando a mudança no nome da Metalúrgica Bennack Acervo de família

A partir da Segunda Guerra, as coisas mudaram. “O preço caiu, a produção caiu. O general Carneiro era o interventor e depois o senhor Mário Catapreta comprou a firma. O nome mudou para Usina Metalúrgica de Joinville, mas sempre na rua 7 de Setembro. As máquinas pesadas foram desenvolvidas depois da guerra”, recorda, explicando que a intervenção na parte administrativa não interferiu no sistema de produção. Na época da guerra, a empresa passou a se chamar Empresa Metalúrgica Nacional. No início dos anos 50 foi denominada de Usina Metalúrgica Joinville Ltda e em 1952 passou a ser a Metalúrgica S/A.

Norberto da Silva conta que na época em que trabalhou no local, havia cerca de 300 funcionários e setores de modelação, fundição e usinagem. “O número era grande. Tinha a fundição com mestres, contramestres e um número elevado de operários”, destaca, enquanto conta como era o processo de fabricação: “As peças eram moldadas e fundidas em caixas especiais. Depois os moldes eram desmanchados e retirada a peça sólida. Deixavam esfriar por um dia ou mais e depois ela era levada para receber jatos de areia. Ficava mais ou menos limpa. Aí seguia para as máquinas para serem usinadas. Devia ter 10, 15 máquinas operatrizes que usinavam essas peças”.

As engrenagens eram todas fresadas no local e ele lembra de funcionários antigos, citados nas reportagens anteriores, como Willy Stricker, fresador-chefe. “As rodas eram fundidas inteiras e o torno as deixavam bem lisas. Depois iam para a fresa para fazer os dentes em uma roda de aço especial. Tiravam uns nacos para fazer os dentes”, explica.

De aprendiz, Norberto da Silva passou a operar as máquinas mais simples e depois as mais complexas até chegar a ser chefe da Usinagem, respondendo diretamente a Carlos Maehl, diretor Industrial da empresa. A filha de Carlos Maehl, Marianne Maehl conta que o pai começou como aprendiz de ferreiro, depois foi técnico em Mecânica, mestre em Calderaria e faleceu em 1971 como diretor da empresa. “Um profissional muito preparado que dirigia a parte da fundição, da montagem e da usinagem”, comenta Norberto da Silva, que ainda hoje se orgulha do local onde trabalhou por tantos anos. “A Bennack foi a maior fábrica de máquinas de Santa Catarina. Fabricava o que o freguês desejava”.

funcionários da Metalúrgica Bennack. Marianne Maehl, filha de Carlos Maehl, diretor Industrial da empresa, identificou algumas pessoas na foto de funcionários da então Empresa Metalúrgica Nacional. Segundo ela, a foto é do período entre 1947 e 1949. Na fileira da frente, a moça de vestido com gola preta é Norma Mori. Seu pai, Carlos Maehl era o senhor de terno escuro. O segundo senhor de guarda-pó branco era Afonso Maehl, seu tio, que depois saiu da empresa e fundou a Aloma, fábrica de bombas hidráulicas.

Funcionários da Metalúrgica Bennack. Marianne Maehl, filha de Carlos Maehl, diretor Industrial da empresa, identificou algumas pessoas na foto de funcionários da então Empresa Metalúrgica Nacional. Segundo ela, a foto é do período entre 1947 e 1949. Na fileira da frente, a moça de vestido com gola preta é Norma Mori. Seu pai, Carlos Maehl era o senhor de terno escuro. O segundo senhor de guarda-pó branco era Afonso Maehl, seu tio, que depois saiu da empresa e fundou a Aloma, fábrica de bombas hidráulicas.

 

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