Metalúrgica Bennack parte 2 – Recreativa, time de futebol e muitas histórias

metalurgica bennack_acervo de familiaAo longo do século 20, a Metalúrgica Bennack se consolidou como uma das grandes empresas de Joinville. Nessa época, o lazer do trabalhador também estava vinculado às empresas, que tinham recreativas estruturadas, onde as famílias se reuniam nos fins de semana. A Metalúrgica Bennack tinha até um clube de futebol, o “Operário”, que chegou a ser campeão catarinense de futebol. Este texto publicado originalmente no jornal Notícias do Dia/Joinville, em 2013, lembra ainda as histórias sobre a origem de Otto Bennack e as evidências de que ele era filho do representante procurador do príncipe de Joinville, Frederic Brüstlein – aquele mesmo que ergueu o “palácio dos príncipes” e fez a rua das Palmeiras.

Esta é a segunda reportagem de uma série de três. Para ler a primeira, clique aqui. A terceira parte será postada nos próximos dias.


Metalúrgica Bennack – Empresa tinha recreativa social já nos anos 50 e até um time de futebol

Maria Cristina Dias, Especial para o Notícias do Dia

Após a 2ª Guerra Mundial, a antiga Metalúrgica Bennack, já chamada de Empresa Metalúrgica Nacional, continuou a ocupar um papel de destaque no cenário econômico de Joinville. No início dos anos 50 ela passou a se chamar Usina Metalúrgica Joinville Ltda e em 1952, passou a ser a Metalúrgica S/A. Fundada em 1893 por Otto Bennack, a empresa passou por muitas transformações e acompanhou a Joinville dos anos 50, que vivia um período de fortalecimento e expansão de seu parque industrial.

Willy Stricker, na Metalúrgica Bennack. Acervo de família

Willy Stricker, na Metalúrgica Bennack. Acervo de família

As mudanças foram acompanhadas por quem trabalhou lá por toda a vida. A trajetória profissional do torneiro-mecânico Willy Stricker mostra bem isso. Nascido em janeiro de 1910, ele ingressou na empresa em novembro de 1925, quando ela ainda era a “Otto Bennack – Officina Mechanica e Fundição de Ferro e Metal”. Durante mais de 40 anos, trabalhou no local, começando como mecânico/fresador e ocupando novos cargos até chegar à chefia do setor. Em sua carteira profissional ainda hoje podem ser observados os registros das diversas mudanças de razão-social ocorridas ao longo dos anos. Em 1949 e 50, as anotações de férias e pagamento do imposto sindical ainda levavam o carimbo da Empresa Metalúrgica Nacional. Mas em 1951, os mesmos registros já são realizados pela Usina Metalúrgica Joinville Ltda.

 

Willy Stricker, na Metalúrgica Bennack. Acervo de família

Willy Stricker, na Metalúrgica Bennack. Acervo de família

Willy Stricker trabalhou por toda a vida na metalúrgica. Filha de Willy, Miriam Stricker da Silva conta que o irmão também era torneiro-mecânico e, assim como o pai, ingressou na empresa jovem, com cerca de 15 anos. O expediente começava bem cedo, às 7h da manhã e tinha uma pausa ao meio-dia para o almoço. Depois seguia até por volta das 17h30. “Quando vínhamos ao centro, muitas vezes minha mãe e eu esperávamos por ele na porta da empresa”. De outras vezes, a família era convidada a entrar e conhecer de perto o local de trabalho do pai. “Ele dizia que trabalhava em três máquinas enormes. E nos levava lá dentro para ver as máquinas novas”. Willy Stricker morreu na própria empresa, em 1968, aos 58 anos. “Abriu a porta do escritório e caiu na sala dele. Tinha enfartado”, conta Miriam.

 

Lazer vinculado à empresa

Miriam Stricker, “Rainha do Clube Atlético Operário”, em 1954. Acervo de família

Miriam Stricker, “Rainha do Clube Atlético Operário”, em 1954. Acervo de família

Como as empresas grandes da época, a Metalúrgica mantinha uma sede recreativa, com atividades para o lazer dos funcionários. Miriam Stricker da Silva conta que em 1954, tinha 15 anos e foi escolhida “Rainha do Clube Atlético Operário”, um título conquistado com a venda de “votos”. Na época era comum a venda de “votos” para a escolha das rainhas das festividades, como uma forma de arrecadar fundos para alguma ação específica. A rainha foi coroada em um baile, ganhou uma faixa e dançou com os gestores da época, senhor Rocha. Um evento inesquecível para uma menina de 15 anos. “Foi a primeira vez que usei um salto alto”, relembra.

A Usina Metalúrgica Joinville Ltda mantinha até um time de futebol, o “Operário”, fundado em 1949 e formado pelos próprios funcionários da empresa. Na década de 50, o time da casa chegou a ser campeão catarinense de futebol.

 

 

Otto Bennack, muitas histórias, poucas certezas

A figura de Otto Bennack é cercada de muitas histórias, que remontam a personagens e costumes do início da colonização e fazem parte do imaginário da cidade. Mas o limite entre o que é fato e o que é “causo” ainda é tênue.

Otto Bennack. Acervo de família

Otto Bennack. Acervo de família

Filho de Wilhelmine Ernestine Bennack, ou Guilhermina Bennack, governanta do “Palácio dos Príncipes”, Emil Wilhelm Otto Bennack nasceu em 1869, em Joinville. No registro de seu batizado, no livro da Comunidade Evangélica, de 1871, consta apenas o nome da mãe. O mesmo ocorre no registro de seu casamento com Catarina Ringwelsky, em abril de 1893, mesmo ano em que fundou a metalúrgica. E em seu registro de óbito, em dezembro de 1944, aos 75 anos, é possível saber que ele deixou duas filhas e uma viúva (a segunda esposa Maria Krause Bennack – a primeira esposa, Catarina, havia falecido em 1914). No lugar destinado ao nome do pai, porém, somente um traço.

Nascida em 1844, Guilhermina Bennack faleceu em 1925. Na certidão de óbito consta que deixou um único filho, Otto, de 50 anos. Mas não consta o nome do marido – ela nunca chegou a se casar oficialmente. Entretanto, em seu testamento, Frederick Brüstlein, procurador do príncipe de Joinville, reconheceu o relacionamento de anos e deixou para ela terrenos como herança. “Deixo a dona Guilhermina Bennack, que comigo reside nesta cidade há 35 anos, livre de ônus, taxa ou imposto, terreno sito na rua Holzer, lado leste (…) a rua Paris (…). Além deste, o o terreno sito entre a rua Boussingault, a rua Aubé, e o caminho particular do trapiche do Cachoeira a leste, com direito a este mesmo caminho (…)”, escreveu de próprio punho em 1900, 11 anos antes de sua morte. A rua Boussingault é a atual rua 7 de Setembro e foi aberta por Brüstlein em terras adquiridas por ele, próximas ao rio Cachoeira.

Na Joinville do final do século 19, a paternidade de Otto Bennack era comentada e atribuída a Frederic Brüstlein, que além de procurador do príncipe de Joinville foi diretor da Colônia Dona Francisca e chegou a ser superintendente de Joinville (cargo equivalente a do atual prefeito), presidente da Câmara Municipal e deputado estadual.

Empresário, proprietário da companhia de navegação que, com o Vapor Babitonga, fazia o trajeto Joinville/São Francisco, ele era uma das figuras de maior destaque na localidade durante a segunda metade do século 19. Brüstlein construiu o “Palácio dos Príncipes” ou “Maison Joinville”, como ele chamava, e que hoje é o Museu da Imigração. E também é responsável pela rua das Palmeiras, batizada de Alameda Brüstlein. Como procurador do príncipe, ele morava no local, que era a sede do Domínio Dona Francisca.

Guilhermina Bennack. Acervo de família

Guilhermina Bennack. Acervo de família

Frederick Brüstlein. AHJ

Frederick Brüstlein. AHJ

No final do século 19, Otto Bennack fundou a oficina que se transformaria na Metalúrgica Bennack e, na primeira metade do século 20, seria uma das mais importantes da região. A metalúrgica foi erguida em um amplo terreno na rua 7 de Setembro, esquina da rua Itajaí. No testamento de Brüstlein consta a doação de área ampla naquela região para Otto Bennack: “Deixo a Otto Bennack o terreno sito entre o trapiche da Cachoeira pelo Norte, o rio Cachoeira a Leste até o fim dos 15 metros do Cais Pochaan, a rua Boussingault pelo Sul e o caminho do trapiche pelo Norte, com direito a este mesmo caminho”, escreveu.

O reconhecimento da paternidade, porém, nunca ocorreu. No mesmo testamento, ele se referia a “Dona Guilhermina e seu filho Otto Bennack” e não fazia referência a nenhum filho. Pelo contrário. Dizia: “Declaro que, sendo solteiro como sou, e sem herdeiros necessários descendentes ou ascendentes, posso livremente dispor de todos os meus bens e, por isso, instituo meus herdeiros as pessoas abaixo mencionadas (…)”.

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