Metalúrgica Bennack tinha produção estratégica para a indústria – parte 1

Há algumas semanas, estava passando pelo Facebook e me deparei com algumas postagens de pessoas querendo saber mais sobre a Metalúrgica Bennack. Demorou um pouco, mas aqui está a primeira parte de uma série de reportagens que fiz para o jornal Notícias do dia no final de 2013. Era para ser somente uma matéria. Mas o volume apurado foi grande e dividi em duas partes. A repercussão foi tão boa, porém, que tive que fazer mais uma matéria com o retorno dos leitores.

Esta é a primeira matéria. A segunda parte pode ser lida clicando aqui. E a terceira parte está aqui.


Metalúrgica Bennack – Sediada na rua 7 de Setembro, ela tinha produção estratégica para a indústria e formava profissionais qualificados na primeira metade do século 20

Maria Cristina Dias, especial para o Notícias do Dia

No final do século 19 e primeiras décadas do século 20, Joinville crescia rapidamente, demandando novos serviços e produtos. Pequenas oficinas, a maioria quase artesanais, começaram a se disseminar, gerando empregos e contribuindo para o desenvolvimento da cidade, que ainda vivia sob os efeitos do ciclo da erva-mate. Em 1893, Otto Bennack instalou sua ferraria na rua 7 de Setembro, na esquina da rua Itajaí, junto a sua casa. A pequena oficina se desenvolveu ao longo das décadas seguintes e se transformou em uma empresa estratégica não só para as demais indústrias da região, mas também para o governo brasileiro. Era a Metalúrgica Bennack, que produzia equipamentos para uso industrial e, nos anos 40, vagões e trilhos para as ferrovias. Além disso, na prática, funcionava como um centro de mão-de-obra qualificada, formando profissionais que depois iriam fundar novos empreendimentos ou atuar nas mais diversas empresas da cidade.

Fundição Otto Bennack, cerca de 1925. AHJ

Fundição Otto Bennack, cerca de 1925. AHJ

Como tantos outros empreendimentos de Joinville, o início da Metalúrgica Bennack foi modesto. Otto Bennack abriu as portas de sua oficina em 1893, consertando equipamentos e produzindo tornos. Naquele período, a erva-mate e a indústria madeireira movimentavam a economia da cidade. Além do negócio em si, com a instalação de empresas de beneficiamento e comércio do mate ou o transporte de madeira, estas atividades incentivavam a instalação de outros empreendimentos prestadores de serviços ou fabricantes de peças e equipamentos. “A forte demanda das economias do mate e madeira influiu na posterior tradição metal-mecânica de Joinville”, analisou Isa de Oliveira Rocha, em seu livro “Industrialização de Joinville – da Gênese às Exportações”. Essa demanda estava por toda parte. Um exemplo são os carroções de São Bento, puxados por até seis cavalos e que transportavam toneladas de mate. “No auge do comércio do mate, chegavam a transitar na estrada Dona Francisca até 800 carroções (…) Ora, os carroções e as barricas, as ferraduras dos cavalos e outros objetos eram, em grande parte, produzidos nas oficinas de Joinville”, explica a autora. Também havia a necessidade de peças, e reparos que eram feitos por ferreiros e mecânicos, em seus pequenos estabelecimentos, por exemplo.

Metalúrgica Otto Bennack - Reprodução Deutscher Kalender 1934

Metalúrgica Otto Bennack – Reprodução Deutscher Kalender 1934

O caminho até se tornar uma grande metalúrgica foi longo, mas nos anos 1920, ela já era considerada a principal fundição de Joinville. No “Almanak de Joinville”, de 1928, a empresa era apresentada em dois grandes anúncios como “Otto Bennack – Officina Mechanica e Fundição de Ferro e Metal”. A lista de produtos era grande e incluía “machinas e installações completas em geral” de tornos, teares e espuladeiras, engenhos de serra, moendas para cana, bombas de todas as qualidades (movidas a motor e a mão), guinchos, ventiladores, moinhos, prensas e até ferros de engomar, eixos de transmissão e chapas para fogões.

Nascido em 1925 na antiga rua Conselheiro Mafra, atual rua Abdon Baptista, o funcionário público federal Ozório Ferreira cresceu nas redondezas da ferraria de Otto Bennack e o conheceu pessoalmente, no início dos anos 1930. “Era um homem rústico, simples. Comprava ferro-velho, que selecionava e revendia para a Tupy. E separava alumínio, com que fazia algumas peças. Eu era vizinho e devia ter uns 12 anos”, recorda, lembrando que ele morava na esquina da rua Itajaí, com 7 de Setembro, em frente à casa da família Gern, onde hoje tem uma imobiliária. A área ficava ao lado de um terreno baldio, que pertencia ao “Palácio dos Príncipes” e Ozório, menino em busca de uns trocados, juntava ferro-velho e vendia à fundição.

O crescimento acelerou nos anos 1930, quando as empresas do setor metal-mecânico tiveram grande desenvolvimento em todo o país, abastecendo o mercado nacional. Otto Bennack cresceu com a produção de tornos mecânicos. No “Blumenauer Volkskalender”, de 1933, um almanaque de Blumenau, redigido em alemão, já aparece a foto da empresa ocupando um prédio grande, de dois pavimentos, na frente das edificações mais antigas, em um extenso terreno na rua 7 de Setembro.

A Empresa Metalúrgica Nacional

Otto Bennack teve um filha, Erna Bennack, que casou com o blumenauense Carlos Jansen. Nos anos 40 era Jansen quem administrava o empreendimento. Nesse período, a metalúrgica fabricava vagões, trilhos e equipamentos ferroviários, um produto estratégico para o País. Bisneto de Otto Bennack, Carlos Jansen tem o mesmo nome do avô e lembra que a casa dele, na rua Aubé, em um morro bem em frente à Ciser, tinha toda a estrutura armada com trilhos de trem, fabricados na metalúrgica.

Considerada uma empresa estratégica, durante a 2ª Guerra Mundial, ela foi encampada em julho de 1942 pelo governo federal, ficando sob comando de um interventor. “Na época da guerra o governo encampou para fazer material bélico”, explica Carlos Jansen, o neto. A informação é complementada no livro de Isa Rocha: “Durante a 2ª Guerra Mundial, o governo federal encampou-a, denominando-a ‘Empresa Metalúrgica Nacional’, para a construção e manutenção de vagões e equipamentos ferroviários, substituindo as importações”, escreveu.

O que aconteceu após a guerra, não é bem claro. Segundo Carlos Jansen, o neto, a empresa foi devolvida ao avô, que a vendeu. Pretendia se mudar para Ubatuba, em São Francisco do Sul, onde tinha terreos. “Se desfez da metalúrgica e tinha paixão por Ubatuba. Estava se mudando para lá, mas, em uma dessas viagens, infartou e faleceu”, conta, referindo-se ao início dos anos 50.

A metalúrgica continuou a funcionar na rua 7 de Setembro e, nos anos 50, recebeu nova denominação: Usina Metalúrgica Joinville Ltda. Só anos depois mudou-se para uma lateral da rua Santa Catarina e, de lá, foi incorporada por uma outra organização.

Formadora de mão-de-obra

Desde seus primeiros anos, a oficina de Otto Bennack e depois Metalúrgica Bennack foi uma formadora de mão-de-obra para empresas da região ou de profissionais que iriam dar origem a novos empreendimentos. Nesta época, ainda era comum as famílias encaminharem seus jovens a empresas, como “aprendizes”, para, como o próprio nome indica, aprender na prática um ofício. Por lá passaram, ainda bem jovens, profissionais como o ferreiro Alwin Stamm, sócio de Friedrich Birckholz na fundação de uma oficina que construía grades de ferro e coches e que várias décadas e mudanças societárias depois, daria origem à Fundição Tupy.

Famílias inteiras trabalhavam no local. Em entrevista à jornalista Maria Cristina Dias, publicada no ND, em 2012, o farmacêutico Laércio Batista contou que o pai, Guilherme Batista, foi funcionário durante anos na metalúrgica e encaminhou para lá os filhos, um a um, assim que eles completaram 14 anos, a idade mínima exigida pela começar. Os dois irmãos mais velhos seguiram o caminho do pai e Lauro Batista, por exemplo, cresceu profissionalmente na empresa. Laércio, porém, começou a trabalhar na Farmácia Vieira até ter a idade mínima para o emprego – e tomou gosto por uma outra profissão.

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