“O Observador às margens do rio Mathias”, segundo Knüppel.

Karl Konstantin Knüppel, criador do "Observador às Margens do Ribeirão Mathias"

Karl Konstantin Knüppel, criador do “Observador às Margens do Ribeirão Mathias”

 

 

 

 

“O Observador às Margens do Rio Mathias” começou a circular em novembro de 1852 e não se sabe exatamente quando ele parou e nem quantos exemplares foram publicados. Mas em 1888 já era uma raridade. Em matéria publicada em janeiro de 1888, em Joinville, o jornal “Reform”, de língua Alemã, trazia informações sobre o antigo periódico manuscrito e dizia que “infelizmente não mais existe, conforme supomos, nenhum exemplar daquele primeiro jornal alemão no Brasil”, conforme tradução de Elly Herkenhoff, publicada no livro “História da Imprensa de Joinville”. E fazia um apelo: “Caso estas observações cheguem ao conhecimento do sr. Redator, nós lhe ficaríamos imensamente gratos se nos pudesse remeter alguns exemplares de seu jornal. Mesmo que o papel esteja amarelado, o conteúdo jamais perderá o seu valor”.

Karl Konstantin Knüppel havia saído da antiga Colônia Dona Francisca em 1861 e na época dessa publicação morava em Botucatu, onde era renomado professor. Por meio de um amigo jornalista do “Rio-Post”, do Rio de Janeiro, tomou conhecimento da matéria publicada no “Reform” e escreveu uma carta para o jornal onde falava sobre “O Observador”, esclarecia informações publicadas, exercitava a ironia e revelava que não tinha guardado sequer um exemplar do primeiro periódico da antiga Colônia Dona Francisca.

O desenho da capa desta postagem foi feito pelo publicitário e escritor Wilson Gelbcke e mostra o “Observador” escrevendo o seu periódico.

A seguir, alguns trechos da carta de Knüppel ao “Reform”, traduzidos por Elly Herkenhoff:

  • “O ‘Observador às Margens do Rio Mathias’ foi produto de um momento e de um capricho e se ali, de quando em quando, soava um tom mais sério, quase pessimista, em seu todo ele era tão leve, tão etéreo, tão desprendido, como as folhas do velho jequitibá, chamado ‘carvalho do sr. Voss, a cuja sombra ele – o ‘Observador’, evidentemente – foi redigido. Livres de pessimismo e excetuados, somente ficavam os senhores da direção e da caixa.”
  • “Eu próprio dava pouco valor ao meu ‘opus’. O preço de cada exemplar do ‘Observador’ não era 320 réis e sim apenas 120 réis, dos quais o copiador recebia 80 e o redator 40 réis. Era difícil conseguir copiadores (…) A maior parte eu próprio copiava – trabalho bastante cansativo e enjoativo, devido à repetição sem fim das piadas e das anedotas. Outras pessoas, ao contrário – o apreciavam muito mais. Chegava-se literalmente a brigar pelo borrão. Ria-se muito, ria-se gostosamente e é o que me dava satisfação, pois era essa a minha finalidade.”
  • “Jamais pensei em colecionar as folhas soltas e tampouco pensava no futuro. Mas sei que alguns dos contemporâneos o fizeram. Com toda a certeza os senhores da direção – pois, quem é que pode contra o amor? Um exemplar ia regularmente para o velho sr. Senador Schroeder, que, segundo consta, não apenas gargalhava durante a leitura, mas quase morria de tanto rir.”

A vida do Redator

Pouco se sabe sobre a vida de Karl Konstantin Knüppel. Em seu livro, Elly Herkenhoff cita apenas o livro de Registro de Casamentos da Comunidade Luterana, onde consta que ele casou em 12 de julho de 1853, aos 36 anos, com a viúva Caroline Baring, nascida em Barbados, nas Pequenas Antilhas. O casal teve dois filhos. Uma menina, Mimi, adotada ainda em Joinville, e João Knüppel, que nasceu em 1873 no município de Belém do Descalvado, no interior de São Paulo, e de quem descende Walther Knüppel e sua filha Patricia, que nos ajudaram a contar essa história.

Ele morou em vários municípios de São Paulo, sempre lecionando, conforme indica Herkenhoff. Em 1866 era diretor da Escola Alemã de São Paulo, na Capital, e depois foi morar em Belém do Descalvado e, em seguida foi diretor da Escola Alemã de Rio Claro. Em fevereiro de 1881 mudou-se para Botucatu, para o Colégio Knüppel, depois Colégio Benjamim Constant.

Em matéria publicada pelo Estado de São Paulo em dezembro de 1951, consta que ele desentendeu-se com o proprietário da escola (que o havia buscado em Rio Claro) por motivos religiosos e foi despedido. Logo depois transferiu a escola para outro prédio, na mesma cidade. “Como a casa era muito grande, o mestre alemão passou a aceitar internos. Pelas aulas cobrava 3$000. O quarto e a alimentação eram pagos à parte”, consta no jornal, baseando-se em entrevista com Mimi Knüppel, filha adotiva do professor, que residia em Botucatu.

Túmulo de Knüppel em Botucatu. Acervo de família

Túmulo de Knüppel em Botucatu. Acervo de família

Consta ainda que Knüppel escreveu em Botucatu uma história da guerra Franco Prussiana, de 1870, e que enviou um exemplar ao Chanceler da Alemanha, Otto von Bismarck. Knüppel teria sido discípulo do Chanceler e manteve a amizade mesmo após a vinda para o Brasil. “Este trabalho, depois de convenientemente corrigido, foi copiado, à mão, em preciosos caracteres góticos, encadernado ricamente e enviado a Bismarck, o então todo poderoso senhor da Germânia”, informa o jornal. O livro chamava-se “Só seis meses”. A Folha de Botucatu, em maio de 1951, também cita a amizade de Knüppel e Bismarck. “Lembram-se seus ex-discípulos ainda vivos e aqui residentes, que era regular a correspondência entre o todo poderoso senhor dos destinos europeus da época e o modesto, mas consciencioso professor da cidadezinha ‘boca de mato’”. E cita uma história sobre esta amizade, que dificilmente pode ser comprovada: “A um certo momento, empreendendo Bismarck uma radical reforma no ensino na Alemanha, manda convidar oficialmente Knüppel para assumir elevada posição em sua terra natal. A resposta ponderada e demorada foi esta: ‘Só há um lugar na Alemanha que poderia atrair-me e esse lugar está ocupado por Bismarck, em vista do que prefiro ficar com meu colégio de Botucatu”. O jornalista faleceu em 1895, em Botucatu. Em sua lápide, no cemitério da cidade, consta a seguinte inscrição: “Orai por ele. Gratidão dos seus discípulos”.

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