“O que vai sobrar de mim é a literatura”

convite pes vermelhos-02Há quatro anos escrevi este perfil de David Gonçalves para o jornal Notícias do Dia. Hoje, trago ele de volta para mostrar um pouco deste escritor paranaense que há mais de 40 anos vive em Joinville.

O texto requer uma atualização. Hoje, David já tem mais 40 livros publicados (entre títulos literários e técnicos) e entrou para a Academia Joinvilense de Letras (AJL). E nesta quinta-feira, 10 de agosto de 2017, lança mais uma obra:  Pés Vermelhos, um romance que tem como tema de fundo a vida no campo, no Paraná, suas origens, como veremos adiante. O lançamento será às 20 horas, na sede da da AJL, na Sociedade Harmonia-Lyra, na rua 15 de Novembro, 485 em Joinville (SC).Todos são bem-vindos.



“O que vai sobrar de mim é a literatura” – Com uma obra que abrange 19 títulos literários e mais 10 de conteúdo técnico, David Gonçalves estimula a leitura entre estudantes e contribui para fomentar a produção local

David Gonçalves lança seu livro "Pés Vermelhos"

David Gonçalves lança seu livro “Pés Vermelhos”

Para ele a literatura é um dom. Algo que você tem que descobrir dentro de si, lapidar com o estudo incansável da língua e a leitura dos grandes mestres da escrita. Uma arte que tem o desafio de ir muito além do lazer… tem a função de despertar a consciência crítica, instigar a reflexão sobre o futuro e a própria existência. “Não pode ser poeira”, afirma David Gonçalves, que construiu uma obra que abrange 19 títulos literários (o vigésimo está no forno) e outros 10 de conteúdo técnico. Escritor, professor e consultor, ele hoje mantém a sua própria editora, realiza um trabalho quase missionário de estímulo à leitura entre os estudantes e ajuda a fomentar a produção local, à frente da Associação da Confrarias das Letras. “O que vai sobrar de mim é a literatura”, avalia.

Ser escritor era algo improvável para o menino nascido em 1952, em Jandaia do Sul, no Paraná. Terra roxa, vermelha, um laboratório étnico com migrantes e imigrantes das mais diversas raças e culturas, que vivia da cultura do café. Os pais, pequenos produtores rurais, praticamente não tinham estudo – sabiam o que era preciso para a vida na roça. Em casa não havia livros. Dos nove filhos, apenas dois estudaram.

Mas, sabe-se lá como ou porquê, a literatura entrou na vida de David na adolescência. Com 12 ou 13 anos, pouco entendia do que os professores explicavam, ia mal na escola. Já sentia, entretanto, que queria ser escritor. Aos 14 anos esse sentimento virou certeza e se materializou na conclusão do primeiro livro. “O Pote de Ouro”, como se chamava, era uma história de terror, com assombrações e muito medo. Nunca chegou a ser publicado, mas indicou um caminho.

A partir daí, sentiu que precisava ler mais, estudar mais, buscar mais. Frequentava a escola a noite e durante o dia ajudava os pais na roça. Em casa não tinha luz elétrica e para ler era preciso contar com uma lamparina de querosene ou ficar até tarde na praça da cidade, aproveitando a luz dos postes. Porém, em um ano foram 152 livros devidamente devorados. “Lia o que me caía nas mãos, sem orientação”, recorda ele, que pegou uma gramática e foi estudar sozinho para entender os meandros da língua. Vivia entre os cadernos, escrevendo. Aos 15 anos, o pai, que não havia terminado o primário, vendeu umas sacas de grãos e lhe deu o presente mais valioso que David poderia imaginar: uma máquina de escrever, daquelas Olivetti portáteis, com tampa. “Foi o grande presente da minha vida”.

David começou a beber nas águas dos grandes autores brasileiros. Monteiro Lobato (a obra adulta), José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos… “Quando encontrei Guimarães Rosa foi um descoberta”, revela ele, que identificou no universo do autor a sua própria vivência no sítio, na roça.

Dos 16 aos 18 anos escreveu o primeiro romance, “Bagaços de Gente” Eram 252 laudas, datilografadas em espaço um para economizar papel, e repletas do realismo fantástico que permeava a cabeça do adolescente. O livro ainda hoje guardado na propriedade da família revela, em suas entrelinhas, o processo de descoberta, de formação, de um escritor. “Anos depois, reli. Percebe-se, em cada capítulo, a influência dos autores que eu lia na época. Sou filho de toda essa gente”, constata.

A primeira publicação saiu em 1972, quando David já cursava as faculdades de Letras e de Administração. A edição foi feita pelo diretório acadêmico da faculdade e a temática principal, o racismo, já deixava vislumbrar a preocupação social que marcaria a trajetória a partir dali. O tema, porém, não era bem visto em um período de exceção como o daqueles tempos e a edição foi recolhida pela Polícia Federal. O título só seria relançado 16 anos depois e hoje está na 8ª edição. Foi no romance seguinte, “Geração Viva”, de 1976, que a temática agrária, o êxodo rural e a transformação do Brasil nos anos 60, 70 e 80 se consolidou em sua obra. “Aqui, sim, a minha literatura se firmou”, constata ele, que chegou em Joinville nessa época, aos 23 anos, já com mestrado em Literatura Brasileira e Teoria Literária.

David Gonçalves já publicou no Rio, em São Paulo, em Curitiba. Tem livros que estão na 16ª edição. Mas há alguns anos resolveu ser dono da própria obra e abrir uma editora. Surgia a Sucesso Pocket. Em 2012 lançou uma coleção juvenil, de contos, para estimular o hábito de leitura em alunos do 5° ao 9º ano. São cinco títulos, que podem ser requisitados gratuitamente por professores e escolas para trabalhar com a garotada. “É um trabalho missionário, que abre as portas para a literatura”, explica.
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www.davidgonçalves.com.br

david.goncalves@uol.com.br

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