O retrato do Observador às Margens do Rio Mathias

Karl Konstantin Knüppel, criador do "Observador às Margens do Ribeirão Mathias"

Karl Konstantin Knüppel, criador do “Observador às Margens do Ribeirão Mathias”

Uma fotografia em preto e branco, meio apagada, guardada durante décadas pela família, revela os traços de uma personagem que marcou a história da Colônia Dona Francisca: Karl Konstantin Knüppel, o responsável pelo primeiro jornal da Colônia Dona Francisca, “Der Beobachter am Mathiasstrom”, “O Observador às Margens do Rio Mathias”, lançado em novembro de 1852, pouco mais de um ano após o início do empreendimento colonizador nas terras dotais dos príncipes de Joinville. Até há pouco tempo, não se conhecia nenhuma imagem dessa personalidade, que foi professor, jornalista e escrivão da Colônia. Porém, no final de 2016, seus descendentes, residentes em São Paulo, cederam à Academia Joinvilense de Letras (AJL) uma cópia da única imagem conhecida de Knüppel. Era o rosto do Observador. “A foto foi doada por um aluno ao meu avô João, que confirmou que era o pai”, revela o bisneto de Karl Knüppel, Walther Alves Knüppel, referindo-se ao avô João Knüppel, filho do jornalista.

Karl Konstantin Knüppel chegou à Colônia Dona Francisca em dezembro de 1851, trazido pelo navio Neptune. Na identificação do passageiro, nada indicava a importância que ele teria no pequeno lugarejo, recém-fundado. Constava apenas que era lavrador, tinha 34 anos, era solteiro, e vinha da cidade de Pinne, Província de Posen, na Prússia Oriental – região hoje pertencente à Polônia. Logo que chegou, porém, deve ter ficado claro que não era exatamente lavrador. O mais provável é que, como muitos outros, tenha emigrado por motivos políticos desencadeados nos movimentos liberais de 1848. “Era na Alemanha, ao tempo em que as convulsões políticas, religiosas e raciais conturbavam o trabalho e a paz. Um jovem educador, cuja fama e trabalhos sistemáticos e honestos granjearam conceito e posição, sentindo-se mal com o peso dos exércitos em marcha, resolveu emigrar para o Brasil”, escreveu o jornal “Folha de Botucatu” (SP) em maio de 1851, em artigo que homenageava o professor. O certo é que Knüppel era um homem das Letras, um educador, e já em 1852 assumiu a função de escrivão na Direção da Colônia.

Walther e Patrícia Knüppel, bisneto e trineta de Karl Knüppel

Walther e Patrícia Knüppel, bisneto e trineta de Karl Knüppel

O jornal “O Observador às Margens do Ribeirão Mathias” foi lançado em novembro de 1852 e era manuscrito. Além de ser pioneiro na pequena colônia, era o segundo em língua alemã no País, atrás apenas do “Der Kolonist”, “O Colono”, publicado em Porto Alegre de agosto de 1852 a julho de 1853. “É possível que o nosso Karl Konstantin tenha sido influenciado pelo lançamento daquele jornal porto-alegrense, ainda mais que, após assumir o cargo de escrivão na Colônia, foi se informando, aos poucos, de fatos que aconteciam na direção e em outros setores, fatos que mereciam ser publicamente expostos, debatidos e criticados – exatamente no estilo humorístico, inimitável do nosso jornalista pioneiro que, já pela escolha do nome do jornal, demonstrou esplêndido senso de humor”, escreveu a memorialista Elly Herkenhoff, em seu livro “História da Imprensa de Joinville”.

Reprodução do primeiro jornal da Colônia Dona Francisca

Reprodução do primeiro jornal da Colônia Dona Francisca

A memorialista, que era tradutora de alemão e francês, refere-se ao fato de que “Strom” é um rio caudaloso, como o Amazonas e o Nilo, por exemplo. Uma ironia do jornalista ao se referir ao ribeirão que corta o centro de Joinville. “O nosso ‘Observador’ poderia ter se instalado às margens do ‘Mathiasbach’ (Ribeirão Mathias) – jamais às margens de um ‘Strom’”, explica, evidenciando a ironia, o humor – e também a crítica – que marcaram o periódico desde o seu início.

Além da data de lançamento, pouco se sabe do jornal e, segundo Elly Herkenhoff, não há exemplares conhecidos dele atualmente. No Arquivo Histórico de Joinville consta um facsímile do primeiro número, provavelmente obtido pelo memorialista Adolfo Bernardo Schneider, fundador do Arquivo, em sua extensa troca de correspondências com arquivos e bibliotecas do exterior em busca de informações sobre a história de Joinville. Em novembro de 1931, o jornal “Estado de São Paulo” publicava a nota “A Imprensa Allemann no Brasil” (sic), onde informava que “um velho paulistano curioso de tais assuntos (a imprensa alemã no Brasil, elucidamos) (…) dirigiu-se ao ‘Museu dos jornais de Achen’ (o único existente no mundo) para saber alguma cousa sobre um jornal manuscrito que se publicou em Dona Francisca, Santa Catarina, e cujo título era ‘Der Beobachter Mathiasstrom’. O referido museu, fundado em 1886 possui entre os demais 120.000 espécimes, dois números dessa preciosidade”. Se estes raros exemplares ainda existem, não se sabe.

A primeira edição

Em sua primeira edição, como é comum, o jornalista apresenta o novo veículo de comunicação – e faz uma triste homenagem à terra que ficou para trás e ao futuro em uma nova Pátria. Elly Herkenhoff traduziu a apresentação do jornal, em seu livro:

“O ‘Observador’ pretende:

Levar a opinião e os anseios de todos ao conhecimento geral
Informar os colonos a respeito das condições da Colônia, desde seu início
Informar as obrigações da Sociedade Colonizadora e a maneira de sua aplicação
Informar a respeito das obrigações dos colonos e de seus direitos para com o Estado, o Príncipe de Joinville e a Sociedade Colonizadora
O ‘Observador’ irá ainda:

Demonstra a necessidade de formação de uma comuna
Demonstrar a situação no futuro, caso perdurem as atuais condições
Debater as condições entre empregadores e empregados e demonstrar porque seria mais vantajoso para a Colônia se ossem empregados apenas trabalhadores europeus
Esclarecer assuntos como: escola, igreja, hospital, caridade e coleta

O ‘Observador’ irá ainda:

Divulgar os meios para melhor produção das diversas culturas agrícolas e esclarecer sobre a venda dos produtos e, finalmente
Coletar e publicar assuntos de interesse geral
E, para que o útil seja unido ao agradável, publicará anedotas e pilhérias sadias e miscelânias que lhe forem anunciadas e
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Tem mais:
Para falar como era o jornal, nada melhor que a descrição do próprio Karl Knüppel. Mas isso vamos deixar para o próximo texto, que abordará também a trajetória do jornalista e educador depois que deixou Joinville, em 1861.

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