Pessoas – Dúnia de Freitas e a poesia fluente que faz parte da vida

No dia 20 de outubro, celebramos o Dia do Poeta, esse ser quase mágico, que brinca com as palavras, dando ritmo emoção ao que pretende dizer. Para lembrar a data, trouxe um pouco da trajetória e da poesia de Dúnia Anjos de Freitas, que marcou a cena cultural catarinense a partir dos anos de 1980 e integrou o grupo Zaragata.

O texto foi publicado originalmente no jornal Notícias do Dia Joinville e pode ser lido abaixo, na íntegra.


Um dia, a poesia

À frente do Zaragata e integrante ativa dos Varais Literários, Dúnia de Freitas marcou a cena literária de Joinville nos últimos 35 anos.

Maria Cristina Dias, especial para o Notícias do Dia/Joinville

Dúnia de Freitas.

Dúnia de Freitas.

Um dia ela se descobriu poeta. Em 1978, em meio às aulas de pós-graduação na Univille, o poema “Felicidade” saiu fluente, pronto, à vontade, como se sempre tivesse estado ali. Dedicado à amiga Raquel San Thiago, era a porta de entrada da professora e historiadora Dúnia de Freitas na poesia. Nos anos seguintes, ela refinou o verso, publicou quatro livros, declamou em praça pública nos Varais Literários e foi uma dos fundadores do grupo Zaragata, participando ativamente da cena literária joinvilense nas últimas três décadas.

Mesmo sem saber, o olhar de poeta faz parte da vida de Dúnia desde muito cedo. Menina nascida em Lages há 69 anos, rebelde, agitada, cheia de energia, sonhava em ser artista… Algo impensável para o pai austero que a colocava em escolas tradicionais, como o Colégio da Divina Providência, em Florianópolis, e depois no Nossa Senhora de Lourdes, no Cajuru, em Curitiba. E como boa parte das moças de sua geração, se formou professora, casou, teve os filhos – três. Também fez faculdade de História, pós e por quase 50 anos esteve em sala de aula.

A alma contida de artista se revelava em aulas pouco comuns, em apresentações pouco acadêmicas muitas vezes incompreendidas pelos seus pares. “Sempre fui poeta nas minhas aulas. Minhas apresentações nunca foram acadêmicas. Levava reprimendas, mas fazia como queria”, relembra ela, que seguiu uma carreira formal na área de História.

No fim da década de 1970, esta alma que flanava descobriu o seu caminho. Não era só fazer poesia. Era poetar, se aperfeiçoar, elaborar o texto, o olhar poético. “A minha poesia era muito ruim no começo e precisava ser trabalhada”, faz a autocrítica – sem esquecer as observações positivas que a incentivaram neste início, como o destaque ao jogo de palavras e à musicalidade.

Nesta trajetória o envolvimento nos movimentos literários da época e a ajuda de escritores foram fundamentais para o crescimento da poeta. Primeiro participou de “O Cordão”, a revista literária que no final dos anos 1970 reunia nomes como os de David Gonçalves, Carlos Adauto Vieira, Germano Jacobs, entre muitos outros. “Quem me ajudou a montar o primeiro livro foi o David Gonçalves”, revela, contando que ele separou os poemas em duas partes, desenhando a estrutura de “Rastos”, editado em 1980. “Separou em ‘meu mundo’ e ‘nosso mundo’. Em ‘nosso mundo’ havia uma poesia panfletária”, explica.

Na rádio e em praça pública

Edição independente, “Rastos” foi divulgado localmente – e teve a tiragem esgotada. Com o apoio do radialista Eli Francisco, que abria o microfone do Show das 10 da Rádio Cultura para a poeta, Dúnia ficou conhecida na cidade.

Na verdade, totalmente desconhecida, Dúnia de Freitas não era. Desde 1978 ela participava dos Varais Literários na praça Nereu Ramos, em meio à feira de artesanato que funcionava no local. “Foi ideia do Alcides Buss fazer o Varal Literário. Por causa dele fui declamar na praça”, recorda, explicando que muitos tinham vergonha de recitar em público. O que nunca foi problema para ela: “As pessoas paravam para olhar e eu adorava. Sou mulher de palco. Sempre quis ser artista. Aliás eu sou artista. Mas não tive o palco normal, criei um palco nas salas de aula”.

O segundo livro “Abracadabra” começou a ser divulgado antes mesmo de ser criado. No início dos anos 80, Dúnia escrevia para os jornais, para colunistas e já avisava que o segundo livro estava a caminho. Com a colaboração do poeta Harry Laus e ilustrações de Índio Negreiros, o livro foi lançado em 1983. “Harry ajudou a fazer as quadras – o que eu amei. Criei um acróstico e dei o título do livro”.

No começo dos anos 90 foi a vez de lançar “Danada”, pela Editora Ipê e apresentação do poeta Lindolfo Bell. Em suas palavras, “um livro que brotou naturalmente, com pouca elaboração”. “Veio quase tudo pronto e era muito eu”, constata ela, que só lançaria “A beira de mim na madrugada azul”, o quarto livro, em 2004, pela editora Letra d’Água.

Efervescência criativa com o Zaragata

Engana-se quem pensa que toda poesia é fácil, que nasce pronta… Às vezes até acontece – ou parece. Mas atrás dos versos está o olhar ímpar do poeta para o mundo, muita leitura e um aprimorar constante da palavra. “Se você quer escrever alguma coisa, tem que se alimentar. Você não tira nada do nada”, ensina Dúnia de Freitas. E era isso que um grupo de poetas cultivou com o Grupo Zaragata, a partir de 1993 até por volta de 2008, quando ficou “em stand by”, como define a poeta.

Ela conta que o grupo que reunia nomes como Rita de Cássia, Marcos Laffin, Rubens da Cunha e Marinaldo Silva nasceu em sua casa e depois ganhou espaço próprio – primeiro em uma sala de padaria na rua Dr João Colin e depois na Cidadela Cultural Antártica. Lá, durante anos, eles estudavam e criavam, lapidavam a palavra, ouviam e faziam as críticas. “Fizemos oficinas, exercícios poéticos… Crescemos muito”, constata. Juntos, fizeram coletâneas literárias e criaram projetos como o “Pão com Poesia”, em que os poemas eram impressos em sacos de pão e distribuídos aos cliente de uma padaria parceira. Com isto contribuíram para disseminar o prazer – e o hábito – de ler poemas. Na década de 90, Dúnia ainda participou do “Poesia em Trânsito”, e junto com um grupo, teve seus textos divulgados nos ônibus do transporte coletivo da cidade.

Aposentada, Dúnia de Freitas tem tempo hoje para ler o que lhe dá prazer.” Há cerca de três anos a dor causada por uma enfermidade tirou-lhe a vontade de escrever. Vontade que, devagarinho, ressurge agora. O olhar do poeta, porém, permanece sempre presente. “Eu costumo dizer que a vida faz de mim o que ela quer. Não tenho inspiração, mas o poeta enxerga o que ninguém enxerga. Este outro olhar descobre o detalhe e faz as pessoas enxergarem as coisas que nunca viram”, define.

Alguns trechos de poemas para alimentar a alma

Felicidade

Felicidade

Tem sabor de quero mais…

É tão bom, dura tão pouco

Parece até algodão doce

(…)

Felicidades

Sabem o que é?

É sermos o que somos,

Aceitando o mundo a todos

Mas a gente em primeiro lugar

Cachoeira da Saudade

Pequenina, com medo de ti,

espreitei teu curso

leve, suave, às vezes ondeado.

Espreitei tuas encostas

cheias de curva

Espreitei teu leito.

Algumas pedras brincavam contigo

tentando impedir que fosses embora tão ligeiro

Ouvi teu canto de felicidade.

Mergulhei em tuas águas.

Saboreei teu frescor

(…)

Arrastão

Barcos em alto mar

Homens de olhares perspicazes

vasculham cardumes

Lançam redes.

Pescadores varam a noite

com olhos de anzol.

(…)

Simples quarto de estudo

Clarices, Cecílias, Jorges

rondam meu mundo

explodindo letras pelas frestas…

no simples quarto de estudo.

(…)

 

(sem título)

Gosto de ti sem tamanho,

gosto de ti sem medida.

Gosto de ti.

Gosto e pronto!

Lembro teu cheiro,

lembro teu gosto.

Lembro de ti.

Lembro e pranto!

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