Política em português bem claro no início do século 20

Esta é a quarta parte da matéria “Muito além da Colônia Dona Francisca”, que fala da presença luso-brasileira na região nordeste catarinense. A matéria foi publicada originalmente no jornal Notícias do Dia/Joinville e dividida em partes para ser postada aqui, devido ao tamanho.

Para ler as três primeiras  é só clicar nos links: Lusos no Norte catarinense – muito antes da Colônia Dona Francisca, Fazendas de lusos foram referência para demarcação de terras, e Quem eram e onde estavam os luso-brasileiros no nordeste de SC.

Na próxima semana, publicaremos a última parte da reportagem, que fala sobre uma das muitas famílias luso-brasileiras da região: os Moreira. Se você pertence ou tem informações sobre outras famílias de origem lusa e quiser colaborar com a continuidade deste trabalho, entre em contato pelo e-mail mcd@mariacristinadias.com.br.

Compartilhamentos são bem-vindos. Mas lembre-se de informar o crédito se copiar alguma informação.

Sede da empresa de Abdon Baptista e Oscar Schneider, na rua do Príncipe, em Joinville. Início do século 20. AHJ

Sede da empresa de Abdon Baptista e Oscar Schneider, na rua do Príncipe, em Joinville. Início do século 20. AHJ

Política em português bem claro –  Brasileiros de origem lusa concentraram o poder político por mais de 30 anos e contribuíram para fazer as bases da Joinville de hoje
Maria Cristina Dias, especial para o Notícias do Dia

A presença de brasileiros de origem lusa na região onde se desenvolveria Joinville remonta ao século 17 e seu apoio foi fundamental no estabelecimento do empreendimento da Sociedade Colonizadora Dona Francisca nessas terras. Mas não parou por aí. A partir das últimas décadas do século 19, com a prosperidade econômica trazida pelo ciclo da erva-mate, os brasileiros se consolidaram na vida pública de Joinville. Unidos por uma intrincada relação de parentesco e compadrio, eles lideraram as principais instituições administrativas e políticas da cidade por mais de 40 anos. De 1892 a 1934 os luso-brasileiros estiveram no comando da Prefeitura (com poucas exceções, especialmente entre 1896 e 1902), um período marcado pelos investimentos em infraestrutura e modernização – e que seria determinante para os anos de desenvolvimento que viriam ao longo do século 20.

A liderança política anda de mãos dadas com o poder econômico. Este poder econômico se fortaleceu a partir da década de 1870, com a abertura da Estrada Dona Francisca e a intensificação do comércio e beneficiamento da erva-mate que vinha do Planalto Norte. Em junho de 1872, os primeiros carregamentos com erva-mate desceram pela estrada. Levaram um dia e meio para percorrer 80 km e abriram caminho para o estabelecimento deste ciclo econômico na região, já que a erva era produzida no Planalto Norte, nas cidades que fazem limite com o Paraná (Mafra, Canoinhas e região do Contestado, entre outras), descia pela Estrada Dona Francisca, era industrializada em Joinville e seguia por vias fluviais até São Francisco do Sul, de onde era exportada.

Os engenhos de erva-mate não tardaram a começar a produzir em Joinville e entre os pioneiros estão os de Antonio Sinke, de Morretes, a partir de 1877. Logo, outros empreendedores do mate, de Morretes e região, como Celestino de Oliveira e Vicente Ferreira de Loyola também estabeleceram engenhos na região.

Com a matéria-prima vindo do Planalto e o beneficiamento feito em Joinville, foram abertas as primeiras empresas exportadoras – fechando assim, o ciclo de produção-beneficiamento-comercialização que seria o grande gerador de riquezas para a cidade no final do século 19. Nesta época, em 1891, surgiu a principal delas, com o nome de Companhia Industrial.

Não por acaso, os principais acionistas da Companhia Industrial foram os nomes que se destacaram na vida política por décadas a partir daí: Abdon Baptista, Procópio Gomes de Oliveira (ambos de ascendência lusa e descendentes ou vinculados pelo casamento às famílias mais antigas da região) e Ernesto Canac, de origem franco – os três foram superintendentes de Joinville (o chefe do Executivo, equivalente ao atual cargo de prefeito). “O poder político veio dessa liderança econômica”, destaca a historiadora Raquel S. Thiago.

Raquel pesquisou sobre a oligarquia do mate e escreveu o livro “Coronelismo Urbano em Joinville – o caso de Abdon Baptista”, onde explica como os brasileiros de origem lusa na região formavam uma intrincada rede de parentesco e compadrios, com uma grande força econômica e, consequentemente, política na virada do século 20 em Joinville. Ela explica que havia lideranças também entre os moradores de origem germânica, mas a princípio, em esfera local. “Abdon Baptista saiu dessa esfera local. E este coronelismo urbano se deu através dele”, avalia, destacando que no período vigorava uma política de compromissos, da qual ele era o principal representante. “Foi o emissário dessa política de compromisso, marcada pela aliança entre o poder privado e o poder público”.

Parentesco, casamentos e compadrios

Abdon Baptista. AHJ

Abdon Baptista. AHJ

As famílias brasileiras de origem luso estabeleceram ao longo do tempo uma rede de relacionamento complexa, baseada no parentesco, nos casamentos e no apadrinhamento. Isso explica como o médico baiano Abdon Baptista, que chegou a São Francisco do Sul em 1880 aos 28 anos de idade, já formado, conseguiu se tornar um dos expoentes políticos da região. Do final do século 19 até a segunda década do século 20, ele foi prefeito de Joinville por duas gestões, deputado estadual, federal e senador da República.

A sua entrada na vida local se consolidou a partir do casamento com Theresa Nóbrega de Oliveira, em 1884. Theresa era filha do coronel José Antônio de Oliveira, uma liderança em São Francisco do Sul, e vinculado ao Partido Liberal – partido a qual Abdon Baptista se ligaria. Os sobrenomes já dão uma ideia da entrada dele para uma família tradicional, radicada na região já há mais de um século. Em seu livro, Raquel S. Thiago ajuda a estabelecer as conexões de parentesco, quando conta que Teresa era irmã de Cezarina Gomes de Oliveira, casada com João Gomes de Oliveira Jr, filho do patriarca João Gomes de Oliveira que, por sua vez, era pai também de outro nome fundamental naquele período, em Joinville: Procópio Gomes de Oliveira.

Outros filhos e filhas de João Gomes de Oliveira estiveram vinculados ao ciclo do mate. Um exemplo é a filha Rita, casada com Victor Celestino de Oliveira, que era filho de José Celestino de Oliveira, um dos primeiros empreendedores de Morretes que se estabeleceu com engenho em Joinville. Em seu livro, Raquel S. Thiago resume esta relação: “O que pudemos observar foi a existência de um grupo familiar, cujo tronco foi João Gomes de Oliveira, e sua figura mais proeminente, o seu filho, coronel Procópio Gomes de Oliveira. Este grupo, que se relacionava intensamente através do compadrio e da atividade econômica, foi acrescido de elementos de outras famílias por laços de casamento, compadrio e, concomitantemente, por relações de negócios”. As “relações de negócios” tinham seu ponto forte na erva-mate.

Assim, ao aliar-se a este grupo, Abdon Baptista inseriu-se definitivamente na comunidade local e firmou a base para sua atividade política, econômica e social. “Não resta dúvidas de que seu casamento, integrando-o na vida política e econômica local, lhe tivesse proporcionado também o prestígio social que, como ‘de fora’, não possuía”, destaca a historiadora.

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